Troca os lençóis
Troca as fantasias
Limpa a casa
Esfrega mel na pele
Traz o violão
Me cerca
Eu te alimento
Te preencho
A casa vazia
A cama cheia
Na cabeceira
Música e uma taça
No colchão outras notas
Aquele que compõe um poema, o faz para acalmar os tumultos do coração, e aquele que o descobre, lê ou escuta, reflete a imagem de um outro que existe em si mesmo, embora o desconheça.
Troca os lençóis
Troca as fantasias
Limpa a casa
Esfrega mel na pele
Traz o violão
Me cerca
Eu te alimento
Te preencho
A casa vazia
A cama cheia
Na cabeceira
Música e uma taça
No colchão outras notas
Escrevo no teu dorso
No teu verso
O verso que colhi no teu colo
No teu avesso
Tinha o gosto das tuas colheitas
Postas à mesa
Controverso:
Certos sabores ainda não têm nome
Eu só disse com os olhos
"Prova..."
E você, com olhos, sim...
Meu cheiro de alecrim
Teu cheiro fresco de...
"Sente?"
Você me olha confusa, sorri
E me beija novamente
Uma curva perfeita corta a água
Recorta uma tarde
Pássaros que parecem borboletas
Que brincam com peixes
E as borboletas estavam dentro de mim
Uma ave levanta vôo
E ela
me olha pela lente sem eu perceber
Bom que voltou -ela disse
E nem sabe como me sinto em casa
Dentro dela
Devagar vamos molhando a erva
As músicas
As lembranças
O canal
O tempo das águas há de vir
E transbordará tudo,
para além da represa
A minha mulher deixa o rastro
De suas saias por onde passa
E molda o vento quando mexe nos cabelos
Reinventa um novo plano
Sussurrando com voz mansa
Ela chega sempre a leves passos
E brinca com a imaginação
De quem observa meus olhos
Embriagados pela sua dança
E sorri enquanto me beija
E me puxa pela mão
E quando ela me deixa
Promete que sem demoras vai voltar
Diz que andou lendo outros poetas
E sigo pelo faro um caminho
De volta suspenso pelo ar
E quando ela retorna
Conta a história de sua cicatriz
Apagando aquelas que fiz em mim
Eu, que pro amor só sei dizer sim
Me preparo novamente
Pra cansar de ser feliz



Do Realismo:
de 13 de Julho de 2009 a 30 de Agosto de 2009 o Museu de Arte do Rio Grande do Sul historicamente exibe a exposição Arte na França 1860 - 1960: O Realismo
“O foco da exposição está no período em que o realismo se afirma na arte francesa e passa a influenciar o panorama cultural internacional, até o momento em que a arte feita nos EUA ascendeu ao primeiro posto. E traz obras de artistas franceses e estrangeiros que produziram na França ou que por lá passaram, como Dali, Vieira da Silva e Miró. Estão incluídos trabalhos dos diversos movimentos e escolas, abordados sob a perspectiva do Realismo - seus pontos de partida, suas versões e propostas.”(Fonte: www.margs.rs.gov.br)
Entrada: Ingresso solidário, doação de 1kg de alimento - eis o mote de minha crônica:
A realidade:
Uma longa fila se formou em frente ao MARGS. A demora de 35 minutos para entrar me deu a oportunidade de observar a curiosa mistura de público que -creio eu- o ingresso solidário proporcionou.
À minha frente um velhinha segurava com orgulho a sacola com sua contribuição numa das mãos, na outra, sua neta de no máximo 6 anos. A senhora observava os banners da fachada como uma criança que aguarda na fila de um parque.
Atrás de mim, um casal de namorados acompanhados da amiga de um deles. Tentando impressionar, o rapaz bancava o marchand para as duas enquanto me torturava com as mais absurdas e desencontradas combinações de informações a respeito da arte. A respeito dos pintores. A respeito das obras ali expostas. A respeito de tudo!
Depois deles, uma senhora com sua mãe e seus 3 filhos. Desde a vestimenta ao palavreado, tudo era polido. Tomava de seus filhos a lição que dera em casa sobre Realismo antes de ir à exposição. Comentava sobre o brasão da Independência no umbral do museu e indagava provocativa qual dos filhos saberia responder por que haviam ramos de café nele. A mãe dela, certamente matriarca soberana na família, contemplava sua própria criação.
À margem da fila, um menino lê mangá sentado num dos bancos da praça. Minutos depois, à volta dele, corre a menina polida atrás de pássaros pousados e junta-se a ela a neta da humilde senhora à minha frente. O menino move-se apenas quando tem que virar as páginas.
Já dentro do museu, o tempo parou. Não havia tempo, som ou pessoas até o mágico momento em que me dei por conta da realidade: diante de mim, uma obra ainda exalava o calor das mãos sobre o pincel, atravessara os séculos e resistira as intempéries –a obra e eu- para que houvesse este encontro. Numa extraordinária combinação de fatores e de destinos, estávamos ali, a obra e eu. E eu chorei.
À minha volta, espalhados pelas galerias, revia as figuras da fila.
O rapaz com sua cultura de almanaque sobre o Realismo –não que a minha vá além disso- tenta encaixar suas opiniões.
Não acho que ele tenha sido capaz de concluir o que a humilde velhinha concluiu:
Mão no queixo e cotovelo na barriga, a velhinha comenta “cousa mais linda né minha filha? Viu que dali pra cá o traço muda?”.
A família polida observa e vaga silenciosa e separada entre as galerias.
E um menino caminha lento, seguindo de longe o seu pai, enquanto lê mangá...

Definitivamente, eu sou a melhor mãe do mundo!
Eu justifico o porquê: apesar de não ter nascido pra isso, eu me supero!
Inventei de levar meu filho ao Jóquei Clube de Santa Maria, onde supostamente pousariam os balões participantes te um Evento Internacional de balonismo.
O stress começa num Engarrafamento Internacional na Venâncio Aires, de carona com uma amiga que narrava entusiasmada como tinha se saído bem numa pista de cart na tarde anterior e de como depois disso arrancou o espelho de uma moto; narrava enquanto se retocava no retrovisor.
“Jonas, não ponha a cabeça para fora. E você, olhe para frente.”
Falei isso alternadamente, inúmeras vezes, até chegarmos.
Pois bem, chegamos lá e estavam exibindo aeromodelos e suas acrobacias aéreas. “Puxa que legal!”
O mateadores começaram a falar entusiasmados como deve ser legal ter um... os marmanjos, porque o Jonas estava puxando um cavalo pela corda. Sim, ele já tinha passado uma cerca e estava tapado de terra, vermelha! Ele limpou o suor do rosto com as mesmas mãos. Ele comeu algodão doce. Céus...
Os comentários positivos sobre os aviõezinhos foram se esgotando, até que se tornaram reclamações e por fim, secretos desejos de manobras desastradas, só pra animar o evento.
Até que, finalmente, aponta um balão no céu! Quanta alegria! O Jonas já não me dava mais ouvidos e seguia perseguindo um novo amigo com torrões de terra.
Horas intermináveis até que todos os outros dez balões salpicassem o quadro da cidade. Chegaram a despertar a esperança nos pobres espectadores ao se aproximar, mas ganharam altitude e distância, até que sumiram.
Acredito que quem mais se decepcionou, entre todos da multidão, foi o narrador. Quando um balão em forma de bolo (surreal) surgiu por detrás dos eucaliptos esse cara se emocionou e começou a organizar aos gritos uma grande recepção, fazendo alusão ao aniversário da cidade e encorajando o pessoal a cantar parabéns quando ele pousasse. Eu queria ter visto ele pousando...
Foto de Júlia
Como eu ia dizendo, ganharam altitude e distância.
Mesmo assim, não se dando por vencido, fez uma contagem regressiva e cantou, quase sozinho, os parabéns... enquanto o bolo sumia no horizonte...
Somente um balão marqueteiro pousou.
Bom, não dá para reclamar, afinal ainda se tinha a opção de se dar uma volta de balão, por uma bagatela de 250 reais.
E o Jonas, ao chegar em casa me pergunta:
-A gente pode comprar um desses mãe?
-Não filho, não viu que não cabe no nosso pátio?
(faz sinal de que não viu direito, estava ocupado se encardindo...)
- Entra pro banho moleque!

Ontem peguei o celular e ameacei duas vezes te ligar.
Zoo
Amigos mais próximos puderam acompanhar minha correria nos últimos dez dias no papel de mãe solteira. Sábado eu cheguei ao limite, acompanhando o Jonas numa excursão de colégio ao zoológico de Sapucaia.
Imagine uma excursão de umas 50 crianças no melhor estilo de “A fantástica fábrica de chocolate”, acompanhadas de suas mães blasès e seu pais... enfim!
Logo de cara um menina salta do nada me perguntando -com toda ingenuidade e tirania que só uma criança consegue ter- se eu pintava meu cabelo. Enquanto o veneno escorria do canto de boca sorridente das tricoteiras, eu respondi: “Sim!!! E, a su-a-mã-e-tam-bém!!!”
O dia ali começou e se estendeu, o sol se estendeu, estendeu o mormaço... Cheguei à maldade de desejar que alguns dos animais ali expostos já tivessem entrado algum dia em extinção, me poupando tanta andança.
Caminhei intermináveis e quase ininterruptas 5h entre jaulas, com pausa apenas pro almoço (pequena pausa, diga-se de passagem). Ao menos eu tava acompanhada do carinha mais legal que conheço, que fazia eu me envergonhar frente ao meu cansaço, visto que ele percorria o triplo, indo até a jaula, voltando pra me anunciar a próxima atração e retornando à mesma pacientemente pra me acompanhar.
Quando finalmente pedi misericórdia à sombra de uma árvore num parquinho, sentei com meus cigarros, arranquei o tênis e fiquei ali, me sentindo tão humana. Foi quando me comovi com três pequenas histórias que aconteceram ao meu redor:
Primeira história:
Três meninas de uns oito anos arrancavam grama enquanto conversavam. Uma delas, empolgada com a função, chegou a sugerir às outras de cobrarem uma pequena taxa do zoológico pelo serviço que acabavam de prestar.
Felizes com a porção de grama que haviam juntado, resolveram jogar tudo o que amontoaram pro alto. Para a surpresa delas, a grama não se dispersou no ar e caiu acertando em cheio apenas uma. Logicamente foi a mais vaidosa delas, a de cabelos longos, volumosos e muito bem escovados, que ficaram cravejados de verde. Ela então deu um grito:
- Meu cabeeeeloooo... Meu cabelo é tudo pra mim! É o que mais amo em mim!
É o que mais amo no mundo! Eu amo mais que... Eu amo mais...mais que ao meu pai!!!
A outra:
- Ai credo, não diz isso que é pecado!
E a terceira:
- Eu queria ter conhecido meu pai...poderiam raspar meus cabelos, se em troca eu pudesse conhecê-lo.
As outras, respeitosamente, seguiram arrancando ervas daninhas...
E ela reiterou, com um sorrisão cheio de orgulho:
- Pelo menos eu sei que ele é jogador de futebol!
Eu, de óculos escuros, chorava por tudo...
Fim.
Segunda história:
Um casal, abraçado. Chegam a um banco com terra encrustrada. Ela olhou desanimada, de cansaço e calor. O cara de chinelo e camiseta do time no ombro, aproveita animado a oportunidade de demonstrar carinho, estendendo a camiseta no banco pra ela sentar. Ela toda derretida elogia e agradece. Ele então fala pra namorada:
-Acho bom que reconheça, você sabe o que essa camiseta representa pra mim!
(...ou: “Nessa vida eu só torço pra você e pro grêmio”)
Fim.
Terceira história:
Um grupo de mulheres, evangélicas, com suas cestas de lanches, seus crochês e etc., sentadas em círculo numa sombra.
Uma delas pediu um celular emprestado e se afastou do grupo. Andava de cabeça baixa, auscultava o aparelho enquanto caminhava de um lado paro o outro, olhos atentos a cada toque que se repetia.
Na roda, como eu, as mulheres a observam. Uma delas suspirando comenta:
- Coitada da ‘fulana’, ela morre de saudades...
Fim.
Eu, atrás dos meus óculos, pensava: “Coitada de mim...”
Fim.
O pôr-do-sol invadiu meu bom sensoMeus dias voltarão a ser normais
