"Dizem que quando a gente morre, a vida inteira passa diante dos olhos, como num flashback."
TEXTO: Dramaturgia criada a partir de blogs, textos, conversas e devaneios.
Textos de Giane Luccas (eu,eu,eu!!! Quanta honra...), Julia Schnorr e Atílio Alencar (dois blogs que não perco de vista nunca!), Flora Sussekind, Tennessee Williams, entre outros.
DIREÇÃO: Pablo Canalles. ELENCO: Espetáculo de formatura das atrizes Bárbara Germani, Elise Schenkel, Juliana Bassaco, Marcele do Nascimento e Paula Ludwig.
...E a mão, pássaro que é, beija-flor-da-pele...
.: Post por Giane Luccas 03:11:00
[sábado, 7 de novembro de 2009]
Eu quero beijar árvores Lamber pedras Comer terra e vento Em cada copo um gole Em cada corpo uma mordida Qualquer coisa que retire O gosto doce do teu beijo
Quero ver cruamente o pôr-do-sol Até que da memória se apague O dourado dos teus pêlos Não quero rimas ou poesias Nem canções que me lembrem O ritmo dos teus abraços
Não quero a beleza Nem quero arte Não quero riso Até que minha boca resseque Não quero qualquer sonho possível Que de todos fazes parte
.: Post por Giane Luccas 01:40:00
[sexta-feira, 30 de outubro de 2009]
a poesia não fala... tudo da beleza das cores
que trazes contigo
a poesia não fala... tudo sobre a luz dos teus olhos excusos a poesia não fala... tudo sobre nudez
dos teus sentimentos tamanho mundo a poesia não fala... tudo sobre o barulho
do meu mergulho em teu corpo
...a poesia ainda não conhece
e por isso não fala...
tudo sobre o gosto agri-doce
da tua pele... a poesia não fala... tudo sobre a densidade e o transbordamento
de tuas entranhas
a poesia não fala... tudo do tumulto
dos nossos corpos enredados a poesia não fala... tudo sobre o som
do meu gemido rouco
e abafado
a poesia não fala... tudo sobre o que acontece c
om teu seio em meio a confusão
de nossas bocas a poesia não fala... da contração daquele músculo
e se falasse
não falaria tudo...
a poesia... não fala... tudo de nós não exala... tudo de nós não traduz... tudo de nós (melhor assim)
Uma amiga me pergunta o que eu faria se começasse a ver com outros olhos um amigo a quem sempre vi como irmão, embora soubesse que o sentimento dele sempre foi outro.
Tive preguiça de responder, mas por fim, interiormente rendeu uma reflexão sobre mim, como sempre:
Resposta a uma amiga
Quer mesmo saber minha opinião sobre isso? Preste atenção (principalmente nas pausas), porque só sei falar por metáfora ou subjetivamente e não vou explicar...
Um copo pela metade pode estar meio cheio ou meio vazio depende de cada um...depende de quem vê! Mas para mim, não importa onde há só uma metade, há UM vazio
de 13 de Julho de 2009 a 30 de Agosto de 2009 o Museu de Arte do Rio Grande do Sul historicamente exibe a exposição Arte na França 1860 - 1960: O Realismo
“O foco da exposição está no período em que o realismo se afirma na arte francesa e passa a influenciar o panorama cultural internacional, até o momento em que a arte feita nos EUA ascendeu ao primeiro posto. E traz obras de artistas franceses e estrangeiros que produziram na França ou que por lá passaram, como Dali, Vieira da Silva e Miró. Estão incluídos trabalhos dos diversos movimentos e escolas, abordados sob a perspectiva do Realismo - seus pontos de partida, suas versões e propostas.”(Fonte: www.margs.rs.gov.br)
Entrada: Ingresso solidário, doação de 1kg de alimento - eis o mote de minha crônica:
A realidade:
Uma longa fila se formou em frente ao MARGS. A demora de 35 minutos para entrar me deu a oportunidade de observar a curiosa mistura de público que -creio eu- o ingresso solidário proporcionou.
À minha frente um velhinha segurava com orgulho a sacola com sua contribuição numa das mãos, na outra, sua neta de no máximo 6 anos. A senhora observava os banners da fachada como uma criança que aguarda na fila de um parque.
Atrás de mim, um casal de namorados acompanhados da amiga de um deles. Tentando impressionar, o rapaz bancava o marchand para as duas enquanto me torturava com as mais absurdas e desencontradas combinações de informações a respeito da arte. A respeito dos pintores. A respeito das obras ali expostas. A respeito de tudo!
Depois deles, uma senhora com sua mãe e seus 3 filhos. Desde a vestimenta ao palavreado, tudo era polido. Tomava de seus filhos a lição que dera em casa sobre Realismo antes de ir à exposição. Comentava sobre o brasão da Independência no umbral do museu e indagava provocativa qual dos filhos saberia responder por que haviam ramos de café nele. A mãe dela, certamente matriarca soberana na família, contemplava sua própria criação.
À margem da fila, um menino lê mangá sentado num dos bancos da praça. Minutos depois, à volta dele, corre a menina polida atrás de pássaros pousados e junta-se a ela a neta da humilde senhora à minha frente. O menino move-se apenas quando tem que virar as páginas.
Já dentro do museu, o tempo parou. Não havia tempo, som ou pessoas até o mágico momento em que me dei por conta da realidade: diante de mim, uma obra ainda exalava o calor das mãos sobre o pincel, atravessara os séculos e resistira as intempéries –a obra e eu- para que houvesse este encontro. Numa extraordinária combinação de fatores e de destinos, estávamos ali, a obra e eu. E eu chorei.
À minha volta, espalhados pelas galerias, revia as figuras da fila.
O rapaz com sua cultura de almanaque sobre o Realismo –não que a minha vá além disso- tenta encaixar suas opiniões.
Não acho que ele tenha sido capaz de concluir o que a humilde velhinha concluiu:
Mão no queixo e cotovelo na barriga, a velhinha comenta “cousa mais linda né minha filha? Viu que dali pra cá o traço muda?”.
A família polida observa e vaga silenciosa e separada entre as galerias.
E um menino caminha lento, seguindo de longe o seu pai, enquanto lê mangá...
Hoje presenciei uma cena surreal no supermercado: uma mulher, de máscara, observa consternada um gordinho que percorre toda a extensão da prateleira de chocolates fazendo moonwalk. Como fiz tal associação? Não, não tocava Michael Jackson nos autofalantes, seria óbvio demais...
Eu justifico o porquê: apesar de não ter nascido pra isso, eu me supero!
Inventei de levar meu filho ao Jóquei Clube de Santa Maria, onde supostamente pousariam os balões participantes te um Evento Internacional de balonismo.
O stress começa num Engarrafamento Internacional na Venâncio Aires, de carona com uma amiga que narrava entusiasmada como tinha se saído bem numa pista de cart na tarde anterior e de como depois disso arrancou o espelho de uma moto; narrava enquanto se retocava no retrovisor.
“Jonas, não ponha a cabeça para fora. E você, olhe para frente.”
Falei isso alternadamente, inúmeras vezes, até chegarmos.
Pois bem, chegamos lá e estavam exibindo aeromodelos e suas acrobacias aéreas. “Puxa que legal!”
O mateadores começaram a falar entusiasmados como deve ser legal ter um... os marmanjos, porque o Jonas estava puxando um cavalo pela corda. Sim, ele já tinha passado uma cerca e estava tapado de terra, vermelha! Ele limpou o suor do rosto com as mesmas mãos. Ele comeu algodão doce. Céus...
Os comentários positivos sobre os aviõezinhos foram se esgotando, até que se tornaram reclamações e por fim, secretos desejos de manobras desastradas, só pra animar o evento.
Até que, finalmente, aponta um balão no céu! Quanta alegria! O Jonas já não me dava mais ouvidos e seguia perseguindo um novo amigo com torrões de terra.
Horas intermináveis até que todos os outros dez balões salpicassem o quadro da cidade. Chegaram a despertar a esperança nos pobres espectadores ao se aproximar, mas ganharam altitude e distância, até que sumiram.
Acredito que quem mais se decepcionou, entre todos da multidão, foi o narrador. Quando um balão em forma de bolo (surreal) surgiu por detrás dos eucaliptos esse cara se emocionou e começou a organizar aos gritos uma grande recepção, fazendo alusão ao aniversário da cidade e encorajando o pessoal a cantar parabéns quando ele pousasse. Eu queria ter visto ele pousando...
Quisera eu não ser vulnerável às tuas aparições Mas ao te ver morro cada segundo E quero um segundo mais Tenho fome de você. Temo-te como aquela que não se sabe Inquieta-me o silêncio que te invade Tenho ânsia de você. Fecho-me quando teu olhar me abre Amo-te se me olhas cheque-mate Tenho falta de você Desejo-te com teus beijos, tuas dores Ainda que não te tenha só pra mim Eu quero apenas o que fores! E não te quero só a mim; merecem todos tua boca, merecem todos teu cabelo, teu gosto Como se a natureza se orgulhasse de ter te feito inevitável E eu não sou tão prepotente assim...
Ela já tem compromisso Mas quer ter alguém Ela iria até o fim do mundo Mas quer ir além Seus pés eternamente indo Me pedindo pra ficar
Se soubesse que ela volta
Valeria a pena esperar Meus olhos cansados À procura de versos Que tatuem suas costas Brilham com sua aparição E se procuro por respostas Vejo que minha sorte passa Pelas linhas de sua mão E ela corre, corre atrás de seus desejos Mas à noite, no silêncio de sua cama, É o desejo quem a alcança no colchão
Quais palavras ainda não foram despejadas sobre você Para enumerar o que te faz tão cara Quais já te cansaram a repetição Quantos gestos em outras mãos Te gastaram aquela sensação tão rara
E palavras vão sendo postas de lado Não há meio-termos para você Os verbos se acumulam nos cantos que ainda não ocupamos E você não os varre para em segredo se envaidecer
E você me pede mais Me pede por mais E por mais neologismos que eu crie Não tenho para onde correr
.: Post por Giane Luccas 22:34:00
[segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009]
“De qualquer jeito”
Quanto tempo mais teus olhos Escorrerão dos meus até a boca E a tua se abrirá em sorriso E os meus desviarão fugindo
Me trazes teus tormentos íntimos E toma toda minha atenção Me mostra teus olhos úmidos Eu te estendo apenas minhas mãos
Quanto tempo mais te verei passar Com vento nos cabelos E corrente nos pés
Sol no corpo que não toco Sombra nos olhos que entregam O porto e solidão que és
Ontem peguei o celular e ameacei duas vezes te ligar. Era meio-dia e eu estava com minhas asas de arrasto... Agora são cinco da manhã e acabo de chegar. A mulher mais linda que já pude ter Hoje me tirou para dançar. Me convidou pra sair. Me puxou pra beijar. Eu não quis. Ou não quis acreditar... Vou jogar fora estas minhas asas Que não voam quando podem voar
.: Post por Giane Luccas 14:25:00
[segunda-feira, 10 de novembro de 2008]
Este é tempo de aridez Do corpo Sem mãos que trabalhem o solo da pele De sexo ressequido De instrumentos que forjem algum orgasmo É tempo de acidez Que corroa enfim teus vestígios na memória De um tempo que não se desfez É preciso que esse tempo dure O suficiente pra esgotar Qualquer fertilidade tua em mim E quando enfim for um deserto Por onde se refugiam os desenganados Uma borboleta desavisada Num leve sobrevôo desajeitado Provocará em meu deserto Um tão desejado e doce tornado
Amigos mais próximos puderam acompanhar minha correria nos últimos dez dias no papel de mãe solteira. Sábado eu cheguei ao limite, acompanhando o Jonas numa excursão de colégio ao zoológico de Sapucaia.
Imagine uma excursão de umas 50 crianças no melhor estilo de “A fantástica fábrica de chocolate”, acompanhadas de suas mães blasès e seu pais... enfim!
Logo de cara um menina salta do nada me perguntando -com toda ingenuidade e tirania que só uma criança consegue ter- se eu pintava meu cabelo. Enquanto o veneno escorria do canto de boca sorridente das tricoteiras, eu respondi: “Sim!!! E, a su-a-mã-e-tam-bém!!!”
O dia ali começou e se estendeu, o sol se estendeu, estendeu o mormaço... Cheguei à maldade de desejar que alguns dos animais ali expostos já tivessem entrado algum dia em extinção, me poupando tanta andança.
Caminhei intermináveis e quase ininterruptas 5h entre jaulas, com pausa apenas pro almoço (pequena pausa, diga-se de passagem). Ao menos eu tava acompanhada do carinha mais legal que conheço, que fazia eu me envergonhar frente ao meu cansaço, visto que ele percorria o triplo, indo até a jaula, voltando pra me anunciar a próxima atração e retornando à mesma pacientemente pra me acompanhar.
Quando finalmente pedi misericórdia à sombra de uma árvore num parquinho, sentei com meus cigarros, arranquei o tênis e fiquei ali, me sentindo tão humana. Foi quando me comovi com três pequenas histórias que aconteceram ao meu redor:
Primeira história:
Três meninas de uns oito anos arrancavam grama enquanto conversavam. Uma delas, empolgada com a função, chegou a sugerir às outras de cobrarem uma pequena taxa do zoológico pelo serviço que acabavam de prestar.
Felizes com a porção de grama que haviam juntado, resolveram jogar tudo o que amontoaram pro alto. Para a surpresa delas, a grama não se dispersou no ar e caiu acertando em cheio apenas uma. Logicamente foi a mais vaidosa delas, a de cabelos longos, volumosos e muito bem escovados, que ficaram cravejados de verde. Ela então deu um grito:
- Meu cabeeeeloooo... Meu cabelo é tudo pra mim! É o que mais amo em mim! É o que mais amo no mundo! Eu amo mais que... Eu amo mais...mais que ao meu pai!!!
A outra: - Ai credo, não diz isso que é pecado!
E a terceira: - Eu queria ter conhecido meu pai...poderiam raspar meus cabelos, se em troca eu pudesse conhecê-lo.
As outras, respeitosamente, seguiram arrancando ervas daninhas... E ela reiterou, com um sorrisão cheio de orgulho: - Pelo menos eu sei que ele é jogador de futebol!
Eu, de óculos escuros, chorava por tudo...
Fim.
Segunda história:
Um casal, abraçado. Chegam a um banco com terra encrustrada. Ela olhou desanimada, de cansaço e calor. O cara de chinelo e camiseta do time no ombro, aproveita animado a oportunidade de demonstrar carinho, estendendo a camiseta no banco pra ela sentar. Ela toda derretida elogia e agradece. Ele então fala pra namorada: -Acho bom que reconheça, você sabe o que essa camiseta representa pra mim! (...ou: “Nessa vida eu só torço pra você e pro grêmio”)
Fim.
Terceira história:
Um grupo de mulheres, evangélicas, com suas cestas de lanches, seus crochês e etc., sentadas em círculo numa sombra. Uma delas pediu um celular emprestado e se afastou do grupo. Andava de cabeça baixa, auscultava o aparelho enquanto caminhava de um lado paro o outro, olhos atentos a cada toque que se repetia. Na roda, como eu, as mulheres a observam. Uma delas suspirando comenta: - Coitada da ‘fulana’, ela morre de saudades...
Fim.
Eu, atrás dos meus óculos, pensava: “Coitada de mim...”
A minha mulher deixa o rastro De suas saias por onde passa E molda o vento quando mexe nos cabelos Reinventa um novo plano Sussurrando com voz mansa
Ela chega sempre a leves passos E brinca com a imaginação De quem observa meus olhos Embriagados pela sua dança
E sorri enquanto me beija E me puxa pela mão E quando ela me deixa Promete que sem demoras vai voltar Diz que andou lendo outros poetas E sigo pelo faro um caminho De volta suspenso pelo ar
E quando ela retorna Conta a história de sua cicatriz Apagando aquelas que fez em mim Eu, que pro amor só sei dizer sim Me preparo novamente Pra cansar de ser feliz
Sinto saudades de mim quando junto a ti E saudades antecipadas pelo instante seguinte de cada despedida é tão forte o que eu sinto que parece que o ultimo beijo será pra sempre o ultimo
fico lembrando aquele meio-beijo, ao lado do táxi atrasando por um dia o carinho mais a sós Não seria justo conosco que aquele fosse o último Grandes romances podem ter um fim assim estúpido?
Eu temo que um beijo traiçoeiro te tome o fôlego para voltar Eu tenho medo que um instante derradeiro chegue sem hora marcada, entre o hoje e o amanhã ceifando o que plantei nos espaços entre nós
.: Post por Giane Luccas 05:51:00
[segunda-feira, 22 de setembro de 2008]
Corre, corre que A rotina te engole Cuspindo teus restos Nas coisas que não
Corre, corre poeta, corre Que de porre em porre Tuas noites passam em vão
Trago tantos estragos Em tragos de furacão Passo ao passo de passageiro E no fim do dia Paira poeira no chão
Amazona do vento Guardiã das noites que não tivemos Para onde puxarás as rédeas do meu desejo Da minha língua que quer invadir O sal de cada poro teu Onde me sinto sem castidade Onde livre sou fiel Eu, exausto morro em teus braços Como o verão no abraço do outono Eu, sem dono... Andaremos de mãos dadas por aí? Eu, se cativo, já não vivo! Morrerei sem ter tido O gosto de ter pertencido a ti?
Tenho procurado me perder Dia pós dia Bar após bar Um pé depois do outro De boca em boca Borrando teus vestígios sob minha pele
Luzes rastreiam os cantos em que me refugio E corro os olhos de cruzarem nova paixão Sugando em cada cigarro a inspiração Antes vinda de teus sons
E tanta gente passa por mim Levando a pele de minhas costas sob as unhas Números que preenchem algum vazio na agenda E nenhuma opção há No sobressalto banhada de suor entre um pesadelo e outro
Talvez melhor fosse Abandonar-me na loucura Que me teve por filha a vida inteira E parar de negar a natureza que me fez Sozinha no mundo
Tenho buscado mansidão... Onde vasculhar o que me faça te odiar Pra não tirar os pés do chão?
Eu tinha um peixe; assim, no passado. Porque o beta vermelho, peixe de uns cinco centímetros e cauda vistosa, morreu. É curioso como usamos o pretérito quando nos referimos aos mortos (tão curioso quanto a tendência automática em santificá-los). Mesmo correndo o risco de soar romântico demais, afirmo que nestes casos sempre preferi o presente. Acredito que a existência não se finda com a morte; em verdade, acho que o existir depende muito pouco do estar vivo. Quase nada.
Eis como a existência revela-se imaterial, subjetiva e relativa a cada um de nós: é só a partir destas linhas, por exemplo, que o meu peixe existe para você. Antes, era apenas mais um objeto incógnito do meu quarto; não existia, em absoluto, no seu mundo relativo.
Krill é vermelho-tango, de reluzentes e pomposas escamas. Apesar do aviso sincero da vendedora, de que “o peixe duraria no máximo um ano e meio”, Krill não deu ouvidos à estatística; nadou e comeu por longos dois anos e oito meses. Durante todo esse tempo, viu-me rir, chorar, cantar e dormir. Viu inclusive o que não devia, para ser sincera.
Krill costumava reagir de forma agressiva quando estranhos o encaravam por muito tempo. Abria as guelras e investia com força contra a parede do aquário, para depois nadar irritado, em voltas, como que frustrado com as próprias limitações que a vida de peixe impõe. Krill queria mais; queria ser o dono do lugar, o guardião onipresente daquele mundo distorcido pelas deflexões da água. E ele fez questão de deixar isso claro desde o começo da nossa telepática relação – vi-me obrigada a comprar um aquário maior para acabar de vez com os deliberados empurrões contra a tampa anterior. Em outras palavras, aquários de peixe beta não combinavam com o Krill. Em suma, ele nunca foi um beta qualquer – por mais parcial que seja tal afirmação.
Krill morreu com a cabeça pousada na pedra que mais gostava; não boiou. Encontrei-o deitado, olhando em direção à minha cama. Talvez me observava dormir (como ele sempre fazia) pela última vez. Talvez tenha morrido revoltado com o resultado das eleições. Ou talvez tenha enfim percebido que nenhum peixe beta sobrevive tanto tempo. Sei apenas que, enquanto embalava-o em papel alumínio (para depois jogá-lo ao lixo, o cemitério dos pequenos seres urbanos), vi-me constrangida por não sentir nada além de um patético carinho. Não exagero a ponto de achar que Krill merecia um enterro nobre ou luto por sua memória; mas quedei-me com a impressão de que ele merecia uma lágrima, ao menos. “Quem lacrimeja ao ver comercial televisivo pode muito bem derramar uma lágrima em memória de um finado querido”, pensei.
Nessas horas, porém, sempre fui incapaz de chorar.
O sol invade a vidraça E eu me abraço forte E as horas transbordam da planilha -ninguém disse que a vida é fácil – Quando chega a tarde, o ônibus passa Tremem as fundações, a mesa, a massa; E eu sinto que é tudo muito frágil. Atravesso a catraca, a calçada, o aço Enquanto falo sozinha na rua, Poucos percebem que meus olhos choram teus pedaços
.: Post por Giane Luccas 22:28:00
[terça-feira, 2 de setembro de 2008]
Um sussurro Soprou como vento norte E os olhos arrastaram As folhas que cobriam A intenção
Um suspiro Aliviou os cortes Quando as mãos afastaram Os segredos e o possível não
Movimentos de cabelos Palavras que remontam certa noite Olhos que pedem perdão Corpo que não pede respostas Uma mulher me pediu Pra ser minha inspiração
.: Post por Giane Luccas 21:03:00
[sábado, 30 de agosto de 2008]
Teus olhos sorrindo Teu riso dentro do beijo Um abraço nos teus cabelos No coração uma flor se abriu por instinto No teu sexo uma concha À pérola rara parindo
Tua pele uma lâmina Que revela a minha até a alma Num frisson de gelar os dentes Entre dedos e pêlos que maneiam Busco teu grito nos teus seios Que há muito nossos corpos anseiam Inutilmente em tantos porquês
Uma pausa Um suspiro Um abraço
E mansamente o dia nasce outra vez
.: Post por Giane Luccas 21:01:00
[quarta-feira, 27 de agosto de 2008]
A dúvida é minha A culpa é tua Leva a linha tênue que Nos mantinha Fico com meus botões Até a cama ficou nua Das cobertas que tinha E das tuas canções
Abra a porta por mim fechada Toma a taça que te dei Revide o tapa em película gravado Rasgue as cartas que marquei Revire e cate teus poemas O que importava eu queimei
Deixe-me qualquer um, tanto faz Vai com teus livros e beijos Pegue o que for teu – eu E devolva a minha paz
escrevia uma poesia Rebuscava na memória os termos mais adequados E compunha versos sem rima com língua e dentes
Sobre o papel da tua pele Os olhos corriam a folha estudando
alguma métrica E recitava te pedindo opinião Lendo as expressões de teu rosto Palavras de silêncio que se traduzem em arfar O corpo da poeta contempla a obra a suspirar...
A gente pensa que é o leito que faz o caminho do rio... A gente pensa que é a ausência que faz o vazio A gente se entorpece tentando conter o frio A gente empobrece sem querer perder o brio
As coisas nos cercam tentando preencher a lacuna Nos enchemos de todos sem resgatarmos coisa alguma E no fim se é que tinha nos resta saída nenhuma
Ai de nós que nos esvaímos de gota em gota Pedaços de nós, poetas, em cada boca Distorcendo cada palavra que lapidamos E de nós a voz já não sai nem rouca
Ao fim da história tão pouca De quem guiou a vida pelo vento Tanta escrita e lamento
ela, sorrindo, faz-me sonhar. E fala, movimentos, e grita; contorce, expressa, suplica.
Quieta ouvindo, ou vindo; faceira, lasciva, sentindo; dança de flerte, pedindo momento íntimo. Lindo.
Mesmo escondida, tímida, ela sorri; ela observa! sei, pois sempre senti. E convida, leve, a deliciosos prazeres que se revelam, claro, antigos quereres.
Depois, durante, olhando chorando suando, diz-me que sou o agora, o tempo flutuando; abraça-me toda, desespero, caindo, arfando; jibóia, sorrindo, paixão com amor, me amando.
O seu corpo feminino e lindo. Só ele. Chegando, sentindo, abrindo. Olhando, vindo, partindo. Andando... Amando...
Acordo no meio da noite Na escuridão do teto teu rosto brilha num sorriso O céu se abre em volta de você...
Eu levanto, bebo água, ligo a tv... Mas eu fecho os olhos e ouço tua voz E na escuridão do teto teu rosto brilha, num sorriso...
Eu caminho, acendo um cigarro, ligo o pc... Mas eu fecho os olhos e ouço tua voz Na tela do computador Na foto, na letra, no som, é você...
Eu me agito, tomo um remédio, desconecto... Só quero me deitar E ver teu rosto na escuridão do teto Brilhando num sorriso
Já não durmo sem você... Me reviro e penso em nós... Meu corpo não relaxa sem teu riso
Eu fecho os olhos para ouvir a tua voz...
.: Post por Giane Luccas 06:58:00 Acordo no meio da noite Na escuridão do teto teu rosto brilha num sorriso O céu se abre em volta de você...
Eu levanto, bebo água, ligo a tv... Mas eu fecho os olhos e ouço tua voz E na escuridão do teto teu rosto brilha, num sorriso...
Eu caminho, acendo um cigarro, ligo o pc... Mas eu fecho os olhos e ouço tua voz Na tela do computador Na foto, na letra, no som, é você...
Eu me agito, tomo um remédio, desconecto... Só quero me deitar E ver teu rosto na escuridão do teto Brilhando num sorriso
Já não durmo sem você... Me reviro e penso em nós... Meu corpo não relaxa sem teu riso
Eu fecho os olhos para ouvir a tua voz...
.: Post por Giane Luccas 06:53:00
[quarta-feira, 23 de julho de 2008]
...eu te remonto nas palavras nos pedaços que colhi no meu colchão em noites mal dormidas sobre livros folheados à procura de sinônimos em versos que dissessem de mim, de você...
Você, nas reticências No silêncio das veias Nos olhares escapados em frestas Do que não dissemos Depois do teu abraço Longas e cúmplices horas
Mãos que se dão de presente
Em dedos que se entrelaçam
E correm perdidos
Os riscos da pele
Olhos que faíscam pistas
Do plano que não tivemos coragem
Descubro aos poucos Tua verdadeira imagem -apaixonante curiosidade – mas ainda restam tantas peças... Em qual delas vou estar?
Deslumbrei-me com o que Antes era um sopro E minha loucura elegorizou Agora como que por encanto Presa em sua tez O mundo me tem em pranto E já não sei o que de mim se fez
Em sonhos de quimera Perco-me na noite Entre mãos e pernas Paixões e embriaguez
A vida, eu bem quisera Não fosse no peito um açoite
Para um amigo tenho sempre um relógio esquecido em qualquer fundo de algibeira. Mas esse relógio não marca o tempo inútil. São restos de tabaco e de ternura rápida. É um arco-iris de sombra, quente e trémulo. É um copo de vinho com o meu sangue e o sol.
(António Ramos Rosa, "viagem através de uma nebulosa", 1960)
Numa desta noites de sarau a dois, um amigo me deixou isto:
A imaginação se expande As pupilas se dilatam Os lábios se abrem Os poros vazam Peito que infla Pêlos eriçam Coração se espalha Correntes se quebram Músculos que se estendem Só o ventre se contrai.
Ela gargalhava num tropeço E um beijo me causava soluços Um orgasmo extravasava-me um choro E me abraçava com cabelos de bruços
Seu sexo me mordia as pernas E com os olhos me dava de comer Enxugava a tempestade com nossos lençóis E inventava contos pro meu sono passar Tecia uma rede com músicas E ali desurromou o meu lugar
Despenteava minha idéias E deslavava minha cara E via cores escorrendo Nas curvas das minhas veias
Cravava sua pele macia Em meus dentes E pra meu desassossego me arrancava poesias
Ela fez tudo ao contrário
De repente perdi de vista o fim Seus pés sempre corriam contra a mão Correram porta a dentro Pra dentro de mim
Estive em Porto Alegre, estive fora do ar por três dias...
(...ainda estou...)
Alguém ao decidir me pediu que eu não fosse Alguém antes de eu ir desejou que eu me apaixonasse Alguém ao partir quis que eu ficasse
Eu, só sei sentir...
"Me atirava do alto na certeza de que alguém segurava minhas mãos, não me deixando cair. Era lindo mas eu morria de medo. Tinha medo de tudo quase: Cinema, Parque de Diversão, de Circo, Ciganos...
Aquela gente encantada que chegava e seguia. Era disso que eu tinha medo, do que não ficava pra sempre."
Mas e se tudo ruir As flores que plantei Os escudos que construí Nos caminhos que andei Em lugares que vivi
Mas e se tudo fluir As sementes que soprei No vento que senti De palavras que pensei E jamais proferi
Mas e se você não vir Os porta-retratos que quebrei Nas paredes que destruí Com as cores que pintei De sons que não esqueci
.: Post por Giane Luccas 13:39:00 Fim de semana cult sem bebedeira...
...que ressaca isso dá! Espetáculos teatrais sexta, sábado e domingo. Só agora to me aprumando...
Poderia me perder aqui escrevendo o que pensei anotar na memória enquanto assistia, mas vou dar o resumo da ópera. Algumas considerações:
Sexta, com mais fina companhia, fui assistir finalmente o badalado Imembuí, espetáculo musical que conta a fantástica história de amor de uma índia e um forasteiro que deram origem a essa aldeia chamada Santa Maria. Tenho lá minhas dúvidas sobre a verossimilhança da romântica história. Tenho minhas dúvidas sobre o espetáculo. Saí cheia de dúvidas! Quem era o velhinho vestido de soldadinho de chumbo que recitava em playback??? Por que o índios eram afros e dançavam street dance com roupas de funk? Por que quem se caracterizava de índio tendia a vestir-se de moita? Gente,eram uns arbustos!Por que o narrador pilchado usava microfone de haste auricular e a cantora que representava Imembuí fazia trejeitos de cantora de barzinho segurando um baita microfone? O melhor, e impecável, sem dúvida fui o instrumental ao vivo, bravo meninos!
Sábado fui assistir finalmente Aline Maciel em seu monólogo, uma adaptação do conto de Jorge Amado: O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá. Linda apresentação, cujo intuito é o resgate da arte de contar histórias. Ao final pude participar do debate que se deu após o comentário da comissão julgadora. Confirmou-se o que sempre falo, mais que talento, é preciso que a atriz tenha graça (no sentido mais virtuoso e menos raso da palavra)! Fui ao teatro sozinha, mas tive sensação de plenitude, ainda mais quando o personagens tomavam forma dentro de mim e um cenário surgia à volta da contadora. Se dependesse da minha nota como júri popular, teria eleito! Aliás, esse esquema do FETISM de debate e júri popular ficou ótimo!
Domingo fui assistir minha ex e futura professora de Técnicas de Representação, Taís Ferreira em Platero e Eu. De cara pensei “não devia ter trazido meu filho”. Muito interessante o trabalho de pesquisa também em cima da arte medieval de contar histórias. Mas... saí da peça com uma certeza (ao contrário de sexta) :
prefiro os gestos sutis que falam tanto mais.
.: Post por Giane Luccas 04:04:00 Fim de semana cult sem bebedeira...
...que ressaca isso dá! Espetáculos teatrais sexta, sábado e domingo. Só agora to me aprumando...
Poderia me perder aqui escrevendo o que pensei anotar na memória enquanto assistia, mas vou dar o resumo da ópera. Algumas considerações:
Sexta, na mais fina companhia, fui assistir finalmente o badalado Imembuí, espetáculo musical que conta a fantástica história de amor de uma índia e um forasteiro que deram origem a essa aldeia chamada Santa Maria. Tenho lá minhas dúvidas sobre a verossimilhança da romântica história. Tenho minhas dúvidas sobre o espetáculo. Saí cheia de dúvidas! Quem era o velhinho vestido de soldadinho de chumbo que recitava em playback??? Por que o índios eram afros e dançavam street dance com roupas de funk? Por que quem se caracterizava de índio tendia a vestir-se de moita? Gente,eram uns arbustos!Por que o narrador pilchado usava microfone de haste auricular e a cantora que representava Imembuí fazia trejeitos de cantora de barzinho segurando um baita microfone? (Faço aqui uma ressalva à Débora Rosa, de talento incontestável) O melhor, e impecável, sem dúvida fui o instrumental ao vivo, bravo meninos!
Sábado fui assistir finalmente Aline Maciel em seu monólogo, uma adaptação do conto de Jorge Amado: O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá. Linda apresentação, cujo intuito é o resgate da arte de contar histórias. Ao final pude participar do debate que se deu após o comentário da comissão julgadora. Confirmou-se o que sempre falo: mais que talento, é preciso que a atriz tenha graça (no sentido mais virtuoso e menos raso da palavra)! Fui ao teatro sozinha, mas tive sensação de plenitude, ainda mais quando os personagens tomavam forma dentro de mim e um cenário surgia à volta da contadora. Se dependesse da minha nota como júri popular, teria eleito! Aliás, esse esquema do FETISM de debate e júri popular ficou ótimo!
Domingo fui assistir minha ex e futura professora de Técnicas de Representação, Taís Ferreira em Platero e Eu. De cara pensei “não devia ter trazido meu filho”. Muito interessante o trabalho de pesquisa também em cima da arte medieval de contar histórias. Mas... saí da peça com uma certeza (ao contrário de sexta) :
prefiro os gestos sutis, que falam tanto mais.
.: Post por Giane Luccas 04:04:00
[sábado, 21 de junho de 2008]
Sentei aqui e escrevi:
“Era madrugada ainda e eu já escrevia poesias lancinantes à sombra promissora dos teus olhos numa foto em sépia...”
Este é o início, e era pra ser um conto. “Vou tentar, nunca escrevi um!” Mas parei por aí, pq já tava saindo outra poesia...
Minhas poesias não têm métrica ou rima, minhas crônicas têm musicalidade...afinal o que eu sou?
Deve ser isso que significa o centauro do meu signo...
.: Post por Giane Luccas 01:21:00
[quinta-feira, 19 de junho de 2008]
Tenho sentido coisas sem nome
Quando leio entrelinhas de alguém distante Que se confirma comigo nos momentos mais inesperados Numa saudade velada das carícias que não trocamos
Não há dor, e é bom... Mas é como se, numa fração, assim de repente tomasse um soco, no meio da multidão ou enquanto dormia, que me fizesse acordar ou no meio de uma música, de olhos fechados bem na boca do estômago sem nem ter visto de quem ou o porquê
E fico segundos, rendida, sentindo Tentando entender
Como se chama esse prazer (de sentir-se nocauteada?)?
A turma em peso foi prestigiar a peça dirigida por Cláudia Schulz (a mesma professora da avaliação de segunda-feira).
Erêndira é o nome do espetáculo, uma adaptação da obra de Gabriel Garcia Márquez.
A Cláudia teve sacadas brilhantes como encenadora, conseguindo ilustrar a história de maneira lúdica e implicitamente poética. Cenário, figurino, luz... Dez!
Todo o elenco brilhou em suas interpretações, com a dose certa de graça e gravidade de cada cena.
De repente estávamos nós, os alunos, na platéia avaliando quem nos deu as primeiras noções de encenação.
Direção: Cláudia Schulz
Atuação: Jean Carlo Balconi Langbecker, Douglas Alex Winkelmann, Helena Carolina Andrade, Lara de Bittencourt, Matheus Foster e Maurício Schneider
Iluminação: Luís Fernando Marques
Figurino, Cenário, Objetos de Cena e Maquiagem: Alessandra Giovanela e Cláudia Schulz
Trilha Sonora: Rodrigo Zanini
Depois voltei pra mais uma madrugada de trabalho.
Sobre segunda...
Então, o ensaio do domingo era geral, para as encenações de conclusão do semestre. Me apresentei em três, duas delas como atriz e uma como diretora, pela qual fui avaliada. Todos deveríamos estar na 1220 as 7:30h, meia hora antes de iniciar. Trabalhei feito bicho a madrugada de véspera inteira e (pasmem) deixei todo material arrumado na mochila esperando amanhecer. Programei o celular e resolvi dar uma cochilada no sofá. Sol na sala. “-Giane...Giane! Tu não tinha aula hoje?” “(que teto é esse? Que dia é esse? Que horas são????) ... “-Corre seu moço! Era pra ta lá há uma hora!!!” Cheguei entregando o cd com a trilha, me despindo porta a dentro, me vestindo de outra e subindo no palco.
Ao final, risos, aplausos, avaliações e comoção de todos com a Claúdia que chega ao final de seu contrato com a UFSM, tendo conquistado TODA turma com carisma e competência!
Ainda no domingo...
“Quase segunda.”
O ponto é que eu sinto.
Poderia pensar o contrário, mas meu sono tem um fundo de verdade e uma ironia de mentira:eu almejo e não consigo. Ou não deixo. Ou não digo.
A lição de hoje? Apaixone-se. A de ontem também. E a de sempre, a de amanhã; somos todos reféns.
...A cama já se vê... boa noite a mim mesmo. Boa noite a você.
.: Post por Giane Luccas 16:56:00
Sobre segunda...
Então, o ensaio de domingo era para as encenações de conclusão do semestre, das quais participei de três, sendo duas como atriz e uma como diretora. As apresentações começaram as 8h, para dar tempo de todas as...20?...se apresentarem. Trabalhei feito bicho a madrugada toda e deixei minha mochila pronta na noite anterior. Resolvi cochilar no sofá por duas horas e programei o despertador.
"-Giane, tu não tinha aula hoje?"
Abro os olhos. O teto branco da sala. "Que dia é hoje? Que horas são?". "Acelera seu moço!!! o senhor não tá entendendo, já era pra eu estar lá
.: Post por Giane Luccas 15:20:00
[domingo, 15 de junho de 2008]
Manhã de domingo.
Vento cortante.
( Em Santa Maria -uma voz dizia no rádio-
Vento: de Oeste a Noroeste a 32 km/h Ponto de orvalho: -3°C)
Eu perco horas correndo para não perder. Eu perco a linha, a hora certa de me recolher.
E a hora de acordar, claro, eu perco também. A absolvição é outra; durmo antes de dizer amém
.A paciência, acredite, essa eu já perdi faz tempo. E até já perdi o freio de um carro que perdi batendo.
Perdi o fio da meada pelos motivos de sempre. Perdi o memorizado pois guardei-o inteiro na mente.
O que podia não foi; patética vergonha de agir. Perdi-a assim, adeus; resta-me, tolo, sonhar e pedir.
Agora ando andando assim, andando a esmo. Sou inércia, perco-me em mim mesmo.
.: Post por Giane Luccas 20:16:00
[sexta-feira, 13 de junho de 2008]
Caio Fernando Abreu
"cartas"
Eu conheci razoavelmente bem Clarice Lispector. Ela era infelicíssima, Zézim. A primeira vez que conversamos eu chorei depois a noite inteira, porque ela inteirinha me doía, porque parecia se doer também, de tanta compreensão sangrada de tudo. Te falo nela porque Clarice, pra mim, é o que mais conheço de GRANDIOSO, literariamente falando. E morreu sozinha, sacaneada, desamada, incompreendida, com fama de "meio doida”. Porque se entregou completamente ao seu trabalho de criar. Mergulhou na sua própria trip e foi inventando caminhos, na maior solidão. Como Joyce. Como Kafka, louco e só lá em Praga. Como Van Gogh. Como Artaud. Ou Rimbaud.
...e esta é Clarice...
Quem, escritor, louco e apaixonado, não morre de medo e vontade de ser um pouco Caio e Clarice?
Eu conheci razoavelmente bem Clarice Lispector. Ela era infelicíssima, Zézim. A primeira vez que conversamos eu chorei depois a noite inteira, porque ela inteirinha me doía, porque parecia se doer também, de tanta compreensão sangrada de tudo. Te falo nela porque Clarice, pra mim, é o que mais conheço de GRANDIOSO, literariamente falando. E morreu sozinha, sacaneada, desamada, incompreendida, com fama de "meio doida”. Porque se entregou completamente ao seu trabalho de criar. Mergulhou na sua própria trip e foi inventando caminhos, na maior solidão. Como Joyce. Como Kafka, louco e só lá em Praga. Como Van Gogh. Como Artaud. Ou Rimbaud.
Caio Fernando Abreu
...e esta é Clarice...
Quem, escritor, louco e apaixonado, não morre de medo e vontade de ser um pouco
Umas desconhecem o prazer Outras me pedem pra explicar Umas me dizem que não Outras me puxam pra dançar
Me contam segredos Me pedem ombro e colo E antes que eu negue Fazem morada aqui dentro
Me arrancam poesia Umas horas, as odeio Mas aí... no outro dia...
.: Post por Giane Luccas 14:27:00
[quarta-feira, 11 de junho de 2008]
Escrita no ônibus, hoje pela manhã:
A poesia tem pressa de seu propósito Se espalha na folha E é jogada aos olhos Sem pedir licença A poesia é cuspida e recusada A poesia é amassada e jogada A poesia é levada pelo vento É arrastada pela chuva É tragada pelo bueiro A poesia entala nas frestas Transborda as ruas Incomoda alheios Interrompe o trânsito Pára a correria.
Adoro quando percebo que a arte não perde a capacidade de me impressionar! Devo o prazer de ontem à minha amiga Mari, que praticamente puxou minhas cobertas via celular e me levou na CESMA. Não conhecia o trabalho deste poeta e agora vou juntar meus pilas pra comprar seu livro e reler a poesia de ontem, que entrou em mim audiovisualmente. O cara brinca seriamente com palavras e os sons que elas têm, cata no mundo uma poesia que pouca gente eu vi perceber no cotidiano, e joga tudo na cara da gente. Fiquei remexida por dentro. Uma sensação de "como é que eu não tinha pensado (ouvido, visto, sentido) isto antes?".
"Pra quem tem fome de poesia, prato cheio é uma folha vazia" - Marcelo Sahea (= o cara!)
Depois disso, aí sim eu dormi, saciada...
.: Post por Giane Luccas 19:30:00
[segunda-feira, 9 de junho de 2008]
“A minha cama pergunta.”
Eu não sei mais o que sonhar quando eu acordo. Eu não sei mais o que sentir quando eu me toco.
Eu preciso de um sábado para ir dormir até tarde no domingo.
Eu preciso de oito dígitos
para ter milhões de falsos amigos.
Eu preciso de um título
que sirva a todas as minhas anotações.
Eu preciso de calmantes para sufocar com as mãos minhas emoções.
Eu não sei mais o que cortar quando eu recordo. Eu não sei mais o que mentir quando eu me choco.
Eu não sei mais o que marcar quando eu anoto. Eu não sei mais o que banir quando eu me jogo.
Eu não sou dono da verdade; sei bem menos do que você pensa.
Eu não tenho assim tanta idade; tenho paixão pelo que me alimenta.
Eu não sei mais o que pensar quando eu me olho. Eu não sei mais o que ferir quando eu não gosto.
De beijo em beijo; será que eu chego lá? Vários telefones; vale o tempo a encontrar?
De cheiro em cheiro, eu posso ter sem querer? E a minha cama pergunta: - Você pode querer sem ter?
Tenho uma pra contar, daquelas do Jonas: Ele chegou em mim com uma régua de 20cm e apontou no 5 dizendo:
-Mãe, minha idade tá aqui, e a tua? - ... é... Filho, busca a trena do teu pai... -Bãi, tu é tão velhinha assim??? -É, mais ou menos… -Ah, mas pra mim tu é uma guriazinha com a idade aqui...
(o dedinho tava no dez...)
Acho que fui, sim; moleca que corria com as sandálias enfiadas nas mãos; rindo de ar inocente, olhos de esperança, mãos de amor.
Mas então vieram os talões de cheque, os desperta-as-dores e os estacionamentos de cinco reais à primeira hora. E foi tudo tão rápido – e pior, tudo tão desavisado – que as tais rugas de expressão cresceram para a chacota óbvia ao bordão
“cultive a criança que existe em você”.
.: Post por Giane Luccas 16:29:00 Eu olho pela janela, e tudo passa tão rápido e é quase sempre cíclico.
Hoje eu sou uma constante tosse que anda, com sono, um pé após o outro- não é assim que tem que ser?
Exausta. Desta patética inércia que me prende à cama apesar do despertador. Das perguntas fúteis, das bolsas que roçam, das contas não pagas, da falta de freio. Da timidez que me foge ao comando. Dos gerúndios quase poéticos.... das reticências. Dos falsos cumprimentos e das impertinentes expectativas. Das pertinentes expectativas. Das portas do elevador que teimam em fechar antes de mim; sempre atrasada, sempre correndo sem mesmo saber o fim. O sono me vive, eu vivo com sono; e os dias são sucessivos... PS´s; Post Scriptum, , Pronto-Socorro. ..
E, à noite, poucas palavras, nenhum som. E tanta escrita.
Canso-me pela divergência, pelo ritmo que me inquieta, pelas histórias que não. E tudo passa tão rápido e é quase sempre cíclico. E eu, olho pela janela.
Eu cansei de não saber pra quem falar; de não saber o quê. Eu cansei de ter tudo, e não ter nada, não saber por quê. Eu não quero mais tremer de medo, eu não quero mais me ouvir chorar baixinho. Eu não quero mais tentar me abraçar à noite. Chega de travesseiro molhado, chega de vazio sufocante e mágoa não-sei-de-quê. De resto, não tenho mais nada a perder; só este eterno engasgo sem nome e sem forma. Prefiro, então, a ausência. O não-estar e o não-ser não podem ser menos confortáveis que isso.
.: Post por Giane Luccas 00:10:00
[sábado, 7 de junho de 2008]
Dar-se por vencida...
é a parte mais dolorida
A parte mais dolorida não é quando termina...
É muito antes ou muito depois do fim
...é quando a gente secretamente se dá por vencida
é quando ainda se tem uma carta mas não se paga pra ver
é quando ainda poderia, mas não tem mais por quê
é quando não se quer mais saber
é quando não se sabe o que sentir
Desistir de alguém é desistir de parte de si
.: Post por Giane Luccas 16:20:00
[sexta-feira, 6 de junho de 2008]
Uma mulher me desafiou a escrever em público! Aqui estou eu, finalmente... Não é a primeira vez que me motivam a mostrar o que escrevo, "vc devia...vc devia...", enfim, veio a chamada certa: "Eu te desafio a escrever um blog!"
A partir daí, eu me desafio a provar coisas, a encontrar definições pra elas, a escrever o que vivi no dia, a achar tempo pra este prazer...
Ao lado, uma poesia escrita em fila de banco. Enquanto isso, dois foram atendidos.
Obrigada Ana, por me desafiar!
E a quem me acompanha neste processo, eu desafio a me amar...
"Quem me quer não me conhece; quem me conhece me teme".(Clarice Lispector)
Minha primeira postagem não poderia ser outra senão esta, com um breve apanhado sobre mim:
Sou velha demais e criança demais para minha idade! Tenho a triste mania de acreditar no ser humano, perdoar as mentiras que me falam e me apaixonar por novos planos. E tímida. Mas só com quem eu conheço bastante, bastante para falar de mim, bastante para olhar dentro dos olhos... eu não sei falar de mim...
Eu sou cheia de manias. Ninguém as conhece por completo - não porque eu não queira, mas porque são muitas. Algumas manias são inofensivas. Já outras, com o passar do tempo, tornam-se insuportáveis. Casar comigo é praticamente impossível - eu não casaria- mas tem gente que consegue...rs
Eu insisto em discutir. Nunca fui muito do estilo "deixa pra lá", a não ser no que falam de mim. Defendo minhas opiniões com tanta veemência e euforia que as pessoas geralmente julgam-me como “pretensa dona da verdade” – ou simplesmente concluem que estou irritada. E a verdade é que eu adoro ouvir as opiniões e experiências alheias. Eu adoro ensinar. Sinto um profundo sentimento de satisfação quando explico algo e o ouvinte entende - uma sensação plena e intensa de tarefa cumprida. E eu sei muito menos do que eu queria saber. Eu sei pouco, muito pouco, embora sempre esteja lendo mais de dois livros...
Eu adoro arte, de todos os tipos!Meu gosto musical varia de Mercedes Sosa a Iron Maiden, passando por Chico Buarque, Janis Joplin, Bethânia, Trip hop e muita Billie Holiday e Piafh, que faz bem pra saúde.
Amo a noite, acho desperdício dormir! Adoro assistir Tele Curso 2000 quando chego, comendo sanduíche de strogonoff gelado.
E eu amo meu trabalho.
Eu simplesmente não sei dirigir devagar. Tenho cacoete de dirigir fumando, e a porta do meu carro se abre para outra dimensão! A cerveja é uma das minhas melhores amigas. Talvez a melhor.
Eu odeio ignorância e apatia. Com todas as minhas forças! Para ser sincera, acho que odeio coisas demais. Eu queria ser mais plácida e impassível (mas eu odeio pessoas impassíveis). Odeio torneiras que desligam automaticamente e ventiladores que supostamente secam as mãos - eu ainda mato quem inventou aquilo. Odeio pré-conceitos (de todos os tipos). Odeio pessoas que batem e empurram enquanto falam; economias desnecessárias, produtos de marcas genéricas e carros cujo nome pode ser colocado no diminutivo, e o silêncio entre mim e a atendente do Mc´Donalds quando ela pergunta objetivamente que número eu quero. E eu odeio partidos e todas suas falsas ideologias.