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terça-feira, 22 de novembro de 2011

Bem no fim da noite, quando bati o ultimo copo na mesa e levantei decidida a encerrar a conta e o sentimento que me prendia a ti, uma mulher içou meu olhar. Fiquei visivelmente desconcertada. Não pelo flerte, mas porque, nesse exato instante, encontrei  junto à minha carteira meia bala de menta, mordida há dias por você.
Então decidi comê-la.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

"meu filho, você vai ser poeta
vai carregar água na peneira
a vida toda..."
(Manoel de Barros)

segunda-feira, 13 de junho de 2011

"Deus de vez em quando me tira a poesia. Olho para uma pedra e vejo uma pedra" (Adélia Prado)

terça-feira, 24 de maio de 2011

segunda-feira, 21 de março de 2011


Despetalei  tua roupa
Arei tua pele
Aguei  tua boca
Sentei à sombra de tua cama
E fiquei ali, esperando 
O sol nascer
Meu amor em ti
Germinar

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Eu queria te dizer que andei ausente
Porque andei ocupada e por isso não liguei
Escrevendo meu livro, mas travei naquela virgula há tempos
Que aproveitei o tempo pra faxinar minha casa
Mas a poeira já rola como pequenas bolas de feno no deserto
Eu queria te contar das coisas que li
Mas as paredes ainda esperam pelos ganchos que esperam pela rede
Eu queria te dizer que também senti saudades
Mas senti saudades de mim

domingo, 20 de fevereiro de 2011

O blog parece abandonado...


Mas todos os dias venho visitá-lo
na esperança de que
as palavras finalmente voltem do coma

Colho a flores que depositaram
os generosos passantes em comentários
Penso em tudo o que tenho para lhes contar
e fumo um cigarro enquanto imagino a quem interessaria

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Fiz da cama nosso mar
E à nau do corpo dei tua mão como guia
Soltei velas e cabelos
A cabeça a flutuar
Não havia farol nessa ventura
E fui de peito aberto contra o rochedo
E você sorria
Enquanto me via afundar

domingo, 17 de outubro de 2010

Eu não sei mais o que sonhar quando eu acordo.
Eu não sei mais o que sentir quando eu me toco.

Eu preciso de um sábado
para ir dormir até tarde no domingo.
Eu preciso de oito dígitos
para ter milhões de falsos amigos.

Eu preciso de um título
que sirva a todas as minhas anotações.
Eu preciso de calmantes
para sufocar com as mãos minhas emoções.

Eu não sei mais o que cortar quando eu recordo.
Eu não sei mais o que mentir quando eu me choco.
Eu não sei mais o que marcar quando eu anoto.
Eu não sei mais o que banir quando eu me jogo.

Eu não sei mais o que pensar quando eu me olho.
Eu não sei mais o que ferir quando eu não gosto.
Eu não sei o que parar quando eu me apaixono.
Eu não sei aonde fugir quando não suporto.


domingo, 3 de outubro de 2010

Das andanças com o Jonas:


Sei que domingo é para ser dia de descanso. O meu ao contrario começou muito cedo indo votar com a cabeça pesada de samba e cerveja da noite anterior. De dever cívico cumprido, peguei o Jonas e fui dar um passeio relaxante como foi aquele ao zoológico. Aceitei um simpático convite de uma amiga para conhecer o sítio da vó dela e almoçar e nos fomos a Três Barras. Um pouco de verde sempre faz bem...

Tudo isso é muito light quando se tem pelo menos um carro pra se por o jogo de raquetes, a pipa, o lanche, roupas, meias e até sapatos extras para um dia fora. E esta é a lista básica, porque criança sempre dá um jeito de pisar, sentar ou virar o que não deve logo no início do dia. Passei o dia monitorando ele que ora estava no alto de uma árvore, noutra estava alimentando um touro, noutra correndo pro açude, noutra cutucando casa de marimbondos. A camiseta desde cedo tava toda babada pelos cães do sítio que há muito não viam crianças por lá e as calças manchadas pelo escorregador também já enferrujado.

Quando enfim o fim da tarde chegou e nos preparávamos pra ir embora, minha amiga foi mostrar a casa ao lado, onde morava sua avó e como o piano chamou atenção, pedimos que ela tocasse para nós.

Aquela senhora fala com dificuldade e se move com mais dificuldade ainda. Pianista por formação, contou que sua peça de formatura continha dezessete páginas e que ela sabia decor, mas que hoje não tocava mais, que há muitos anos não tocava. Pediu os óculos, se posicionou, cutucou algumas teclas pra saber se elas ainda estariam vivas, arrancou os óculos do rosto e começou.

O Jonas pela primeira vez no dia parou. Sentou-se na cadeira de balanço dela de frente para o piano e só tirava os olhos das mãos dela para observar algum porta-retrato sobre o piano. Ela, tendo platéia, ousou fechar os olhos por segundos e as mãos alçavam pequenos vôos sobre as teclas, aspergindo notas no ar...

Eu, enquanto isso, pensava se era a canção que embalava a cadeira ou se era a criança que embalava aquelas mãos...

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Bateu a real
Bateu na mesma tecla
Bateu o telefone
Bateu a cabeça três vezes
Bateu um bolo
Bateu a hora
Bateu na minha porta
Bateu na minha cara
Bateu o carro

Parou.
Respirou.

Bateu o remorso
Mandou flores

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Te vi saindo e tive vontade de te chamar
Pra te dizer que tive vontade de tocar teus cabelos
Enquanto você lia
Tive vontade de te beijar cada vez que você sorriu
Eu quis te dizer que te amo naquele abraço
Mas não disse
Não fiz.
Eu não sei o que me dá por dentro
Que me trava por fora

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Tinha os cabelos revoltos como os sentimentos
Indomáveis por vezes
Tomava as cores e formas do que carregava por dentro

Tinha os olhos fugidios como os pés
E as horas da madrugada
Sempre avançando quando lhe pediam pra ficar

Tinha o coração como albergue
Aberto à gente de todo tipo e lugar
Tinha os gestos e as palavras contidos
Incoerentes com a fera que parecia ser

Mas no sexo era doce
E isto era sempre pouco para quem a tomava
Enquanto a amavam
Olhava pela janela
Era apaixonada pelo mundo
E este não cabia em nenhuma cama

sábado, 24 de julho de 2010

Se um poema fosse possível
Pra falar de dor
Eu te faria um poema
Que te rasgasse o ventre
Que te pulsasse o sangue quente que não tens
Meu amor

Se um poema fosse possível
Pra te calar a boca
Eu te faria um poema
Que te beijasse por dentro
Que te tremesse de medo
Meu amor

Se um poema fosse possível
Pra te fazer assim sentir como eu
Eu te faria um poema
Pra acabar de vez com a dúvida
De que, o que me consome
É amor...

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Olhos e poros abertos
Espreitando tua próxima frase
Quem te prende noutra janela
Enquanto derramo flores e versos
Dentro da tela

Gerúndios
Reticências e gerânios
Plantados em solo duvidoso
Ao sol fugidio como teus pés

E a noite vem, a madrugada avança
Com o mesmo entusiasmo que sinto
De pisar em terra estranha

O cansaço do corpo se espalha
E eu às voltas de regar teu ego

Tem uma coisa dentro de mim que continua acordada enquanto eu durmo

terça-feira, 15 de junho de 2010

Eu tenho lido A Divina Commedia
Eu tenho pensado no inferno
Eu tenho escrito as falas de uma peça
Mas quando olho nos teus olhos
Não há versos nem falas
E os demônios são outros
Dante não fez referência nenhuma aos teus olhos
Não queimou em tua cama
Nem bebeu comigo em copo sujo no fim da noite
Pra saber o que é arder...

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Pássaros em fita
No céu de Santa Maria
Apontando em seta
Um lugar quente ao norte daqui
Longe da minha cama
Me cubro e aguardo
A massa polar
Cruzar sobre mim

sexta-feira, 4 de junho de 2010

No ônibus pra Porto Alegre:
Fiz as malas às pressas
Trouxe o básico pra sobreviver três dias
Entregue aos teus cuidados
Vasculho o frigobar do ônibus
Não há água
Mas é distribuído jornal e tem wireless
Essas pessoas têm sede de quê?
Não trouxe note nem bloco
E a poesia me vem quando estou despreparada
E a sede, quando não há água
Vou a um encontro despida
Sem levar nem uns versos comigo
Voltarei com sede de quê?

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009




Não quero supor quem sejas
Ou como desvelou meu desejo
Só quero que chegues manso como abalo sísmico
E provoque o medo que anseio

Sou quem espera pelo incerto
E precisa da sede que não sacia-se
Sou quem clama pelo desespero
E sussurra um nome no escuro



Sei que surgirás na hora em que eu menos esperar
Como corpos de amantes quando tomados de assalto
Como a morte noticiada por espirais

Sei que farás morada sem que eu perceba
E espero que seja rápido e indolor
Para que quando eu desperte seja tarde demais

terça-feira, 1 de dezembro de 2009




Quero um dia te acordar mesmo que à distância
Te fazer perder o sono com a lembrança
E te fazer sorrir
Que de tanto prazer
Não queiras mais dormir
E desperte para dentro do meu sonho

quarta-feira, 18 de novembro de 2009


"Dizem que quando a gente morre, a vida inteira passa diante dos olhos, como num flashback."


TEXTO: Dramaturgia criada a partir de blogs, textos, conversas e devaneios.

Textos de Giane Luccas (eu,eu,eu!!! Quanta honra...), Julia Schnorr e Atílio Alencar (dois blogs que não perco de vista nunca!), Flora Sussekind, Tennessee Williams, entre outros.

DIREÇÃO: Pablo Canalles. ELENCO: Espetáculo de formatura das atrizes Bárbara Germani, Elise Schenkel, Juliana Bassaco, Marcele do Nascimento e Paula Ludwig.


data:
27/11/09


hora:
20:30


onde:
Teatro Caixa Preta - Campus UFSM


quinta-feira, 12 de novembro de 2009



...E a mão, pássaro que é, beija-flor-da-pele...

sábado, 7 de novembro de 2009






Eu quero beijar árvores
Lamber pedras
Comer terra e vento
Em cada copo um gole
Em cada corpo uma mordida
Qualquer coisa que retire
O gosto doce do teu beijo

Quero ver cruamente o pôr-do-sol
Até que da memória se apague
O dourado dos teus pêlos
Não quero rimas ou poesias
Nem canções que me lembrem
O ritmo dos teus abraços

Não quero a beleza
Nem quero arte
Não quero riso
Até que minha boca resseque
Não quero qualquer sonho possível
Que de todos fazes parte

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

a poesia não fala...
tudo da beleza das cores
que trazes contigo
a poesia não fala...
tudo sobre a luz dos teus olhos excusos
a poesia não fala...
tudo sobre nudez
dos teus sentimentos tamanho mundo
a poesia não fala...
tudo sobre o barulho
do meu mergulho em teu corpo

...a poesia ainda não conhece
e por isso não fala...
tudo sobre o gosto agri-doce
da tua pele...
a poesia não fala...
tudo sobre a densidade e o transbordamento
de tuas entranhas
a poesia não fala...
tudo do tumulto
dos nossos corpos enredados
a poesia não fala...
tudo sobre o som
do meu gemido rouco
e abafado
a poesia não fala...
tudo sobre o que acontece c
om teu seio em meio a confusão
de nossas bocas
a poesia não fala...
da contração daquele músculo
e se falasse
não falaria tudo...
a poesia...
não fala...
tudo de nós
não exala...
tudo de nós
não traduz...
tudo de nós (melhor assim)

mas a poesia não cala...

sábado, 22 de agosto de 2009

Quis Deus, a sorte, o destino ou o acaso
Que eu te olhasse naquele instante exato
Em que um raio de sol bateu num ângulo perfeito
E que você sorrisse naquele momento
Eu não empunhava espada ou escudo
Eu não montava vigia ao meu peito
E você arrebentou a tranca
E invadiu minha escuridão com teu espectro
Sem me perguntar se eu queria ser o teu eleito

sábado, 15 de agosto de 2009

SETE MINUTOS
O BASTANTE PRO DESASSOSEGO
MUDEI DE IDÉIA, DE INTENÇÃO

QUIS SETE MINUTOS
O BASTANTE PRA TE AMAR
ESQUECER TUDO MAIS, PERDER A RAZÃO

EM SETE MINUTOS
VI A VIDA SEM COMPLEXIDADE
MUDEI MEU RUMO, MINHA SORTE
MEU CORAÇÃO...

SETE MINUTOS ETERNIDADE,
REPOUSEI EM TEU PEITO
EMUDECI
MAIS SETE MINUTOS
E TUDO ESVANECEU

SÃO SETE HORAS DA MANHÃ
E VOCÊ NÃO ESTÁ AQUI...

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Uma amiga me pergunta o que eu faria se começasse a ver com outros olhos um amigo a quem sempre vi como irmão, embora soubesse que o sentimento dele sempre foi outro.

Tive preguiça de responder, mas por fim, interiormente rendeu uma reflexão sobre mim, como sempre:


Resposta a uma amiga

Quer mesmo saber minha opinião sobre isso?
Preste atenção (principalmente nas pausas),
porque só sei falar por metáfora ou subjetivamente
e não vou explicar...

Um copo pela metade
pode estar meio cheio
ou meio vazio
depende de cada um...depende de quem vê!
Mas para mim, não importa
onde há só uma metade, há UM vazio

meio,
metade,
mezzo,
morno...
nunca me bastaram

sempre preferi pagar pra ver, compreende?

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Do Realismo:

de 13 de Julho de 2009 a 30 de Agosto de 2009 o Museu de Arte do Rio Grande do Sul historicamente exibe a exposição Arte na França 1860 - 1960: O Realismo

“O foco da exposição está no período em que o realismo se afirma na arte francesa e passa a influenciar o panorama cultural internacional, até o momento em que a arte feita nos EUA ascendeu ao primeiro posto. E traz obras de artistas franceses e estrangeiros que produziram na França ou que por lá passaram, como Dali, Vieira da Silva e Miró. Estão incluídos trabalhos dos diversos movimentos e escolas, abordados sob a perspectiva do Realismo - seus pontos de partida, suas versões e propostas.”(Fonte: www.margs.rs.gov.br)

Entrada: Ingresso solidário, doação de 1kg de alimento - eis o mote de minha crônica:

A realidade:

Uma longa fila se formou em frente ao MARGS. A demora de 35 minutos para entrar me deu a oportunidade de observar a curiosa mistura de público que -creio eu- o ingresso solidário proporcionou.

À minha frente um velhinha segurava com orgulho a sacola com sua contribuição numa das mãos, na outra, sua neta de no máximo 6 anos. A senhora observava os banners da fachada como uma criança que aguarda na fila de um parque.

Atrás de mim, um casal de namorados acompanhados da amiga de um deles. Tentando impressionar, o rapaz bancava o marchand para as duas enquanto me torturava com as mais absurdas e desencontradas combinações de informações a respeito da arte. A respeito dos pintores. A respeito das obras ali expostas. A respeito de tudo!

Depois deles, uma senhora com sua mãe e seus 3 filhos. Desde a vestimenta ao palavreado, tudo era polido. Tomava de seus filhos a lição que dera em casa sobre Realismo antes de ir à exposição. Comentava sobre o brasão da Independência no umbral do museu e indagava provocativa qual dos filhos saberia responder por que haviam ramos de café nele. A mãe dela, certamente matriarca soberana na família, contemplava sua própria criação.

À margem da fila, um menino lê mangá sentado num dos bancos da praça. Minutos depois, à volta dele, corre a menina polida atrás de pássaros pousados e junta-se a ela a neta da humilde senhora à minha frente. O menino move-se apenas quando tem que virar as páginas.

Já dentro do museu, o tempo parou. Não havia tempo, som ou pessoas até o mágico momento em que me dei por conta da realidade: diante de mim, uma obra ainda exalava o calor das mãos sobre o pincel, atravessara os séculos e resistira as intempéries –a obra e eu- para que houvesse este encontro. Numa extraordinária combinação de fatores e de destinos, estávamos ali, a obra e eu. E eu chorei.

À minha volta, espalhados pelas galerias, revia as figuras da fila.

O rapaz com sua cultura de almanaque sobre o Realismo –não que a minha vá além disso- tenta encaixar suas opiniões.

Não acho que ele tenha sido capaz de concluir o que a humilde velhinha concluiu:

Mão no queixo e cotovelo na barriga, a velhinha comenta “cousa mais linda né minha filha? Viu que dali pra cá o traço muda?”.

A família polida observa e vaga silenciosa e separada entre as galerias.

E um menino caminha lento, seguindo de longe o seu pai, enquanto lê mangá...

domingo, 2 de agosto de 2009

Do Pop e da gripe

Hoje presenciei uma cena surreal no supermercado: uma mulher, de máscara, observa consternada um gordinho que percorre toda a extensão da prateleira de chocolates fazendo moonwalk.
Como fiz tal associação? Não, não tocava Michael Jackson nos autofalantes, seria óbvio demais...

quarta-feira, 22 de julho de 2009


Uma mulher precisa ouvir o amor
Enquanto uiva noutro canto da cidade
Eu garimpo verbetes pra lhe encantar

Clama pelas palavras de um homem que a ama em silêncio
E eu aos litros escorro meu desejo
Nos seus ouvidos sem cessar

Cobre-se de ouro desde os cabelos e desfila na luz
Caçando o olhar daquele homem que só não é indiferente à sua nudez
Sem imaginar que é a mim que ela seduz

terça-feira, 16 de junho de 2009




Eu hoje fiz uma canção
Começou tão distante
Tão errante
Que parecia tua

Mostrou outra melodia
Tão nova
Que se tornou tão nossa
Que te via nua

Sem compromisso
De saber como se tocar
Brotou dentro de mim
E desde então
passei a assobiar

sábado, 23 de maio de 2009



Definitivamente, eu sou a melhor mãe do mundo!



Eu justifico o porquê: apesar de não ter nascido pra isso, eu me supero!



Inventei de levar meu filho ao Jóquei Clube de Santa Maria, onde supostamente pousariam os balões participantes te um Evento Internacional de balonismo.






O stress começa num Engarrafamento Internacional na Venâncio Aires, de carona com uma amiga que narrava entusiasmada como tinha se saído bem numa pista de cart na tarde anterior e de como depois disso arrancou o espelho de uma moto; narrava enquanto se retocava no retrovisor.



“Jonas, não ponha a cabeça para fora. E você, olhe para frente.”



Falei isso alternadamente, inúmeras vezes, até chegarmos.





Pois bem, chegamos lá e estavam exibindo aeromodelos e suas acrobacias aéreas. “Puxa que legal!”



O mateadores começaram a falar entusiasmados como deve ser legal ter um... os marmanjos, porque o Jonas estava puxando um cavalo pela corda. Sim, ele já tinha passado uma cerca e estava tapado de terra, vermelha! Ele limpou o suor do rosto com as mesmas mãos. Ele comeu algodão doce. Céus...





Os comentários positivos sobre os aviõezinhos foram se esgotando, até que se tornaram reclamações e por fim, secretos desejos de manobras desastradas, só pra animar o evento.



Até que, finalmente, aponta um balão no céu! Quanta alegria! O Jonas já não me dava mais ouvidos e seguia perseguindo um novo amigo com torrões de terra.



Horas intermináveis até que todos os outros dez balões salpicassem o quadro da cidade. Chegaram a despertar a esperança nos pobres espectadores ao se aproximar, mas ganharam altitude e distância, até que sumiram.





Acredito que quem mais se decepcionou, entre todos da multidão, foi o narrador. Quando um balão em forma de bolo (surreal) surgiu por detrás dos eucaliptos esse cara se emocionou e começou a organizar aos gritos uma grande recepção, fazendo alusão ao aniversário da cidade e encorajando o pessoal a cantar parabéns quando ele pousasse. Eu queria ter visto ele pousando...

Foto de Júlia


Como eu ia dizendo, ganharam altitude e distância.



Mesmo assim, não se dando por vencido, fez uma contagem regressiva e cantou, quase sozinho, os parabéns... enquanto o bolo sumia no horizonte...



Somente um balão marqueteiro pousou.





Bom, não dá para reclamar, afinal ainda se tinha a opção de se dar uma volta de balão, por uma bagatela de 250 reais.





E o Jonas, ao chegar em casa me pergunta:



-A gente pode comprar um desses mãe?



-Não filho, não viu que não cabe no nosso pátio?



(faz sinal de que não viu direito, estava ocupado se encardindo...)



- Entra pro banho moleque!

sábado, 25 de abril de 2009

Quisera eu não ser vulnerável às tuas aparições
Mas ao te ver morro cada segundo
E quero um segundo mais
Tenho fome de você.
Temo-te como aquela que não se sabe
Inquieta-me o silêncio que te invade
Tenho ânsia de você.
Fecho-me quando teu olhar me abre
Amo-te se me olhas cheque-mate
Tenho falta de você
Desejo-te com teus beijos, tuas dores
Ainda que não te tenha só pra mim
Eu quero apenas o que fores!
E não te quero só a mim;
merecem todos tua boca,
merecem todos teu cabelo,
teu gosto
Como se a natureza se orgulhasse
de ter te feito inevitável
E eu não sou tão prepotente assim...

sábado, 11 de abril de 2009

Com precisão e zelo
Me pus a escrever o que te ferisse
E nada e nenhum termo bastava
-nem bastarão
Para que a mesma dor que senti
Você sentisse

Relia com frieza
O gume de cada linha
Mas era sempre preciso mais paixão
Revirei o arsenal que tinha
Mas tudo me escapava das mãos

Maldita contradição que macula
Minhas bélicas palavras e rancor
Que mesmo para falar de ódio
Eu preciso de mais amor

terça-feira, 3 de março de 2009

Ela já tem compromisso
Mas quer ter alguém
Ela iria até o fim do mundo
Mas quer ir além
Seus pés eternamente indo
Me pedindo pra ficar
Se soubesse que ela volta
Valeria a pena esperar
Meus olhos cansados
À procura de versos
Que tatuem suas costas
Brilham com sua aparição
E se procuro por respostas
Vejo que minha sorte passa
Pelas linhas de sua mão
E ela corre, corre atrás de seus desejos
Mas à noite, no silêncio de sua cama,
É o desejo quem a alcança no colchão

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Quais palavras ainda não foram despejadas sobre você
Para enumerar o que te faz tão cara
Quais já te cansaram a repetição
Quantos gestos em outras mãos
Te gastaram aquela sensação tão rara

E palavras vão sendo postas de lado
Não há meio-termos para você
Os verbos se acumulam nos cantos que ainda não ocupamos
E você não os varre para em segredo se envaidecer

E você me pede mais
Me pede por mais
E por mais neologismos que eu crie
Não tenho para onde correr

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009


“De qualquer jeito”

Quanto tempo mais teus olhos
Escorrerão dos meus até a boca
E a tua se abrirá em sorriso
E os meus desviarão fugindo

Me trazes teus tormentos íntimos
E toma toda minha atenção
Me mostra teus olhos úmidos
Eu te estendo apenas minhas mãos

Quanto tempo mais te verei passar
Com vento nos cabelos
E corrente nos pés

Sol no corpo que não toco
Sombra nos olhos que entregam
O porto e solidão que és

domingo, 8 de fevereiro de 2009

Ontem peguei o celular e ameacei duas vezes te ligar.
Era meio-dia e eu estava com minhas asas de arrasto...
Agora são cinco da manhã e acabo de chegar.
A mulher mais linda que já pude ter
Hoje me tirou para dançar.
Me convidou pra sair.
Me puxou pra beijar.
Eu não quis.
Ou não quis acreditar...
Vou jogar fora estas minhas asas
Que não voam quando podem voar

segunda-feira, 10 de novembro de 2008


Este é tempo de aridez
Do corpo
Sem mãos que trabalhem o solo da pele
De sexo ressequido
De instrumentos que forjem algum orgasmo
É tempo de acidez
Que corroa enfim teus vestígios na memória
De um tempo que não se desfez
É preciso que esse tempo dure
O suficiente pra esgotar
Qualquer fertilidade tua em mim
E quando enfim for um deserto
Por onde se refugiam os desenganados
Uma borboleta desavisada
Num leve sobrevôo desajeitado
Provocará em meu deserto
Um tão desejado e doce tornado

domingo, 9 de novembro de 2008


Me disseram que solidão é sina e é pra sempre.

Confesso que gosto do espaço que é ser sozinho.

Essa extensão, largura, páramo, planura, planície, região.

No entanto, a soma das horas acorda sempre a lembrança

do hálito quente do outro. A voz, o viço.

Hoje andei como louca, quis gritar com a solidão,

expulsar de mim essa senhora ciumenta.

Madona sedenta de versos. Mas tive medo.

Medo de que ao sair levasse a imensidão onde me deito.



(Viviane Mosé -







Poemas do livro Pensamento do Chão, poemas em prosa e verso. Reproduzidos sob autorização da autora.)

sábado, 1 de novembro de 2008

Zoo

Amigos mais próximos puderam acompanhar minha correria nos últimos dez dias no papel de mãe solteira. Sábado eu cheguei ao limite, acompanhando o Jonas numa excursão de colégio ao zoológico de Sapucaia.


Imagine uma excursão de umas 50 crianças no melhor estilo de “A fantástica fábrica de chocolate”, acompanhadas de suas mães blasès e seu pais... enfim!


Logo de cara um menina salta do nada me perguntando -com toda ingenuidade e tirania que só uma criança consegue ter- se eu pintava meu cabelo. Enquanto o veneno escorria do canto de boca sorridente das tricoteiras, eu respondi: “Sim!!! E, a su-a-mã-e-tam-bém!!!”


O dia ali começou e se estendeu, o sol se estendeu, estendeu o mormaço... Cheguei à maldade de desejar que alguns dos animais ali expostos já tivessem entrado algum dia em extinção, me poupando tanta andança.


Caminhei intermináveis e quase ininterruptas 5h entre jaulas, com pausa apenas pro almoço (pequena pausa, diga-se de passagem). Ao menos eu tava acompanhada do carinha mais legal que conheço, que fazia eu me envergonhar frente ao meu cansaço, visto que ele percorria o triplo, indo até a jaula, voltando pra me anunciar a próxima atração e retornando à mesma pacientemente pra me acompanhar.


Quando finalmente pedi misericórdia à sombra de uma árvore num parquinho, sentei com meus cigarros, arranquei o tênis e fiquei ali, me sentindo tão humana. Foi quando me comovi com três pequenas histórias que aconteceram ao meu redor:

Primeira história:

Três meninas de uns oito anos arrancavam grama enquanto conversavam. Uma delas, empolgada com a função, chegou a sugerir às outras de cobrarem uma pequena taxa do zoológico pelo serviço que acabavam de prestar.

Felizes com a porção de grama que haviam juntado, resolveram jogar tudo o que amontoaram pro alto. Para a surpresa delas, a grama não se dispersou no ar e caiu acertando em cheio apenas uma. Logicamente foi a mais vaidosa delas, a de cabelos longos, volumosos e muito bem escovados, que ficaram cravejados de verde. Ela então deu um grito:

- Meu cabeeeeloooo... Meu cabelo é tudo pra mim! É o que mais amo em mim!
É o que mais amo no mundo! Eu amo mais que... Eu amo mais...mais que ao meu pai!!!

A outra:
- Ai credo, não diz isso que é pecado!

E a terceira:
- Eu queria ter conhecido meu pai...poderiam raspar meus cabelos, se em troca eu pudesse conhecê-lo.

As outras, respeitosamente, seguiram arrancando ervas daninhas...
E ela reiterou, com um sorrisão cheio de orgulho:
- Pelo menos eu sei que ele é jogador de futebol!

Eu, de óculos escuros, chorava por tudo...

Fim.

Segunda história:

Um casal, abraçado. Chegam a um banco com terra encrustrada. Ela olhou desanimada, de cansaço e calor. O cara de chinelo e camiseta do time no ombro, aproveita animado a oportunidade de demonstrar carinho, estendendo a camiseta no banco pra ela sentar. Ela toda derretida elogia e agradece. Ele então fala pra namorada:
-Acho bom que reconheça, você sabe o que essa camiseta representa pra mim!
(...ou: “Nessa vida eu só torço pra você e pro grêmio”)

Fim.

Terceira história:

Um grupo de mulheres, evangélicas, com suas cestas de lanches, seus crochês e etc., sentadas em círculo numa sombra.
Uma delas pediu um celular emprestado e se afastou do grupo. Andava de cabeça baixa, auscultava o aparelho enquanto caminhava de um lado paro o outro, olhos atentos a cada toque que se repetia.
Na roda, como eu, as mulheres a observam. Uma delas suspirando comenta:
- Coitada da ‘fulana’, ela morre de saudades...

Fim.

Eu, atrás dos meus óculos, pensava: “Coitada de mim...”

Fim.

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Eu te cercava de lembranças
Você afirmava que elas eram
Ainda melhores dentro de você
Mas optava por esquecer

Mostrou a linha frágil entre amor e ódio
Nos deitamos sobre ela
Aumentou o risco da queda
Elevou à altura vertiginosa
Dos orgasmos que tivemos

Disse não querer mais sentir
E me jogou pro lado de lá...

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

O pôr-do-sol invadiu meu bom senso
E quem precisa de bom senso agora?
Se tudo esvaeceu depois que partiu

Não sei onde ou quando comecei a te amar
Talvez tivesse te sonhado ainda na infância
Perdi-me ao te materializar em uma visão

E teu sorriso corrompeu meu juízo
Ah, era tudo que eu precisava...

Mas agora tuas mãos somem na neblina
E eu não sei se verei mais a tua cor
Conversa que não terminamos
Me desmancho tocando a chuva fina

Besta normalidade que me assusta
Triste pôr-do-sol que me avisa que amanhã

Meus dias voltarão a ser normais

terça-feira, 14 de outubro de 2008

Um segundo antes do ato, até mesmo um suicida tem todas as possibilidades do mundo!

Então me diz: por que não nós, antes do fim?

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

A dor que sentimos separados, distantes, ainda isso é comunhão...

terça-feira, 7 de outubro de 2008



"O meu amor é um anjo de pedra com uma asa quebrada"
- Caio F. Abreu


Gota a gota
Eu matava sua sede
Recompunha teu sorriso
E recolhia teus restos no colchão

Grão a grão
O tempo escorria impiedoso
Revirava nosso ninho
Escondia o resto no porão

Lágrima por lágrima
Eu lavava o teu colo
E esculpia nele meu refúgio
Mas sempre restava solidão

Litros! aos litros o amor se esvaía
Eu te cobria com meu pranto
Despejava toda a culpa
Sobre tua negação

domingo, 5 de outubro de 2008

A minha mulher deixa o rastro
De suas saias por onde passa
E molda o vento quando mexe nos cabelos
Reinventa um novo plano
Sussurrando com voz mansa

Ela chega sempre a leves passos
E brinca com a imaginação
De quem observa meus olhos
Embriagados pela sua dança

E sorri enquanto me beija
E me puxa pela mão
E quando ela me deixa
Promete que sem demoras vai voltar
Diz que andou lendo outros poetas
E sigo pelo faro um caminho
De volta suspenso pelo ar

E quando ela retorna
Conta a história de sua cicatriz
Apagando aquelas que fez em mim
Eu, que pro amor só sei dizer sim
Me preparo novamente
Pra cansar de ser feliz

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Sinto saudades de mim quando junto a ti
E saudades antecipadas pelo instante seguinte
de cada despedida
é tão forte o que eu sinto
que parece que o ultimo beijo
será pra sempre o ultimo

fico lembrando aquele meio-beijo, ao lado do táxi
atrasando por um dia o carinho mais a sós
Não seria justo conosco que aquele fosse o último
Grandes romances podem ter um fim assim estúpido?

Eu temo que um beijo traiçoeiro
te tome o fôlego para voltar
Eu tenho medo que um instante derradeiro
chegue sem hora marcada, entre o hoje e o amanhã
ceifando o que plantei nos espaços entre nós

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Corre, corre que
A rotina te engole
Cuspindo teus restos
Nas coisas que não

Corre, corre poeta, corre
Que de porre em porre
Tuas noites passam em vão

Trago tantos estragos
Em tragos de furacão
Passo ao passo de passageiro
E no fim do dia
Paira poeira no chão

sábado, 20 de setembro de 2008



Amazona do vento
Guardiã das noites que não tivemos
Para onde puxarás as rédeas do meu desejo
Da minha língua que quer invadir
O sal de cada poro teu
Onde me sinto sem castidade
Onde livre sou fiel
Eu, exausto morro em teus braços
Como o verão no abraço do outono
Eu, sem dono...
Andaremos de mãos dadas por aí?
Eu, se cativo, já não vivo!
Morrerei sem ter tido
O gosto de ter pertencido a ti?

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Tenho procurado me perder
Dia pós dia
Bar após bar
Um pé depois do outro
De boca em boca
Borrando teus vestígios sob minha pele

Luzes rastreiam os cantos em que me refugio
E corro os olhos de cruzarem nova paixão
Sugando em cada cigarro a inspiração
Antes vinda de teus sons

E tanta gente passa por mim
Levando a pele de minhas costas
sob as unhas
Números que preenchem algum vazio na agenda
E nenhuma opção há
No sobressalto banhada de suor
entre um pesadelo e outro

Talvez melhor fosse
Abandonar-me na loucura
Que me teve por filha a vida inteira
E parar de negar a natureza que me fez
Sozinha no mundo

Tenho buscado mansidão...
Onde vasculhar o que me faça te odiar
Pra não tirar os pés do chão?

sábado, 13 de setembro de 2008

Enterro seco

Eu tinha um peixe; assim, no passado. Porque o beta vermelho, peixe de uns cinco centímetros e cauda vistosa, morreu. É curioso como usamos o pretérito quando nos referimos aos mortos (tão curioso quanto a tendência automática em santificá-los). Mesmo correndo o risco de soar romântico demais, afirmo que nestes casos sempre preferi o presente. Acredito que a existência não se finda com a morte; em verdade, acho que o existir depende muito pouco do estar vivo. Quase nada.

Eis como a existência revela-se imaterial, subjetiva e relativa a cada um de nós: é só a partir destas linhas, por exemplo, que o meu peixe existe para você. Antes, era apenas mais um objeto incógnito do meu quarto; não existia, em absoluto, no seu mundo relativo.

Krill é vermelho-tango, de reluzentes e pomposas escamas. Apesar do aviso sincero da vendedora, de que “o peixe duraria no máximo um ano e meio”, Krill não deu ouvidos à estatística; nadou e comeu por longos dois anos e oito meses. Durante todo esse tempo, viu-me rir, chorar, cantar e dormir. Viu inclusive o que não devia, para ser sincera.

Krill costumava reagir de forma agressiva quando estranhos o encaravam por muito tempo. Abria as guelras e investia com força contra a parede do aquário, para depois nadar irritado, em voltas, como que frustrado com as próprias limitações que a vida de peixe impõe. Krill queria mais; queria ser o dono do lugar, o guardião onipresente daquele mundo distorcido pelas deflexões da água. E ele fez questão de deixar isso claro desde o começo da nossa telepática relação – vi-me obrigada a comprar um aquário maior para acabar de vez com os deliberados empurrões contra a tampa anterior. Em outras palavras, aquários de peixe beta não combinavam com o Krill. Em suma, ele nunca foi um beta qualquer – por mais parcial que seja tal afirmação.

Krill morreu com a cabeça pousada na pedra que mais gostava; não boiou. Encontrei-o deitado, olhando em direção à minha cama. Talvez me observava dormir (como ele sempre fazia) pela última vez. Talvez tenha morrido revoltado com o resultado das eleições. Ou talvez tenha enfim percebido que nenhum peixe beta sobrevive tanto tempo. Sei apenas que, enquanto embalava-o em papel alumínio (para depois jogá-lo ao lixo, o cemitério dos pequenos seres urbanos), vi-me constrangida por não sentir nada além de um patético carinho. Não exagero a ponto de achar que Krill merecia um enterro nobre ou luto por sua memória; mas quedei-me com a impressão de que ele merecia uma lágrima, ao menos. “Quem lacrimeja ao ver comercial televisivo pode muito bem derramar uma lágrima em memória de um finado querido”, pensei.

Nessas horas, porém, sempre fui incapaz de chorar.

segunda-feira, 8 de setembro de 2008


O sol invade a vidraça
E eu me abraço forte
E as horas transbordam da planilha
-ninguém disse que a vida é fácil –
Quando chega a tarde, o ônibus passa
Tremem as fundações, a mesa, a massa;
E eu sinto que é tudo muito frágil.
Atravesso a catraca, a calçada, o aço
Enquanto falo sozinha na rua,
Poucos percebem
que meus olhos choram teus pedaços

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Um sussurro
Soprou como vento norte
E os olhos arrastaram
As folhas que cobriam
A intenção

Um suspiro
Aliviou os cortes
Quando as mãos afastaram
Os segredos
e o possível não

Movimentos de cabelos
Palavras que remontam certa noite
Olhos que pedem perdão
Corpo que não pede respostas
Uma mulher me pediu
Pra ser minha inspiração

sábado, 30 de agosto de 2008

Teus olhos sorrindo
Teu riso dentro do beijo
Um abraço nos teus cabelos
No coração uma flor se abriu por instinto
No teu sexo uma concha
À pérola rara parindo

Tua pele uma lâmina
Que revela a minha até a alma
Num frisson de gelar os dentes
Entre dedos e pêlos que maneiam
Busco teu grito nos teus seios
Que há muito nossos corpos anseiam
Inutilmente em tantos porquês

Uma pausa
Um suspiro
Um abraço

E mansamente o dia nasce outra vez

quarta-feira, 27 de agosto de 2008


A dúvida é minha
A culpa é tua
Leva a linha tênue que
Nos mantinha
Fico com meus botões
Até a cama ficou nua
Das cobertas que tinha
E das tuas canções

Abra a porta por mim fechada
Toma a taça que te dei
Revide o tapa em película gravado
Rasgue as cartas que marquei
Revire e cate teus poemas
O que importava eu queimei

Deixe-me qualquer um, tanto faz
Vai com teus livros e beijos
Pegue o que for teu – eu
E devolva a minha paz

terça-feira, 19 de agosto de 2008

Agora que tens um segundo plano

Me por em primeiro

Surgiu um terceiro

Que leu a poesia que era pra ti

Abriu o vinho para mim

Sorriu e começou a me despir


Agora que voltas com ombros caídos

Me pedindo colo, me pedindo abrigo

Alguma luz se apagou

A agulha no disco pulou

Alguém me puxou pela mão

Alguém no meu ouvido falou


Agora que te sentes livre

Eu já não sei se quero ir

Alguém me fez sentir

O sabores de perfumes

E as cores que eles têm

Me tornei amante do mundo

Não quero ser de mais ninguém

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Àquela estrela tatuada no ombro dela

Estrela que me chama a atenção
Dentre todas as outras, és mais, és paixão
Me persegues, instigante
Pedes por tudo que sou capaz

Representas as noites que trago na alma
Minha sede de luz e calma
És presença intrigante
De esperança e paz

Em toda parte me acompanha, vai além
E me pergunto que sentido tem
Quando sento os pés no chão

Por que brilha ainda
Se esta noite finda
E estou na solidão?

quarta-feira, 13 de agosto de 2008



Quando a saudade é física
Quando a distância é medida em tempo
Quando o sexo é obra de arte
Quando meio sorriso é comprimento

Quando o sonho faz suar
Quando a lembrança transporta
Quando o silêncio sufoca
Quando a ausência é pesar
Quando outra opção não importa

Quando tudo que é tanto mais
Vira qualquer coisa assim
Quando não-sei-mas-não-me-deixe-em-paz
Quando o que eu tento matar
Parece tomar conta de mim

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Enquanto me davas prazer
escrevia uma poesia
Rebuscava na memória os termos mais adequados
E compunha versos sem rima com língua e dentes
Sobre o papel da tua pele
Os olhos corriam a folha estudando
alguma métrica
E recitava te pedindo opinião
Lendo as expressões de teu rosto
Palavras de silêncio que se traduzem em arfar
O corpo da poeta contempla a obra a suspirar...

sexta-feira, 8 de agosto de 2008


A gente pensa que é o leito que faz o caminho do rio...
A gente pensa que é a ausência que faz o vazio
A gente se entorpece tentando conter o frio
A gente empobrece sem querer perder o brio

As coisas nos cercam tentando preencher a lacuna
Nos enchemos de todos sem resgatarmos coisa alguma
E no fim se é que tinha nos resta saída nenhuma

Ai de nós que nos esvaímos de gota em gota
Pedaços de nós, poetas, em cada boca
Distorcendo cada palavra que lapidamos
E de nós a voz já não sai nem rouca

Ao fim da história tão pouca
De quem guiou a vida pelo vento
Tanta escrita e lamento

No sótão, o que sobrou da pobre louca

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

...e no fim de semana choveu, trovejou!
Depois fez-se calmaria. Houve uma pausa aqui dentro.
Não sei bem o escrever desde então.

Poema enquanto pulo o meio fio

Águas que correm sobre as pedras,
Que mãos modelam suas curvas
E traçam a rota que faz?

Águas agitadas, límpidas, turvas
Todas elas vindas de um mesmo céu
Que em chuva agora jaz

Águas que num desespero mudo
Vasculham todas as frestas
Com pressa de chegar

Água, água, que confusa está:
Por que tanta pressa,
Se para o mesmo céu retornará?

E eu agora exorto você,
Nostálgico, esperando a chuva passar:
Repense logo sua vida,
pois não é somente a chuva
Que brevemente passará!

segunda-feira, 28 de julho de 2008

Muitas vezes basta-me olhar;

ela, sorrindo, faz-me sonhar.
E fala, movimentos, e grita;
contorce, expressa, suplica.

Quieta ouvindo, ou vindo;
faceira, lasciva, sentindo;
dança de flerte, pedindo
momento íntimo. Lindo.

Mesmo escondida, tímida, ela sorri;
ela observa! sei, pois sempre senti.
E convida, leve, a deliciosos prazeres
que se revelam, claro, antigos quereres.

Depois, durante, olhando chorando suando,
diz-me que sou o agora, o tempo flutuando;
abraça-me toda, desespero, caindo, arfando;
jibóia, sorrindo, paixão com amor, me amando.

O seu corpo feminino e lindo.
Só ele.
Chegando, sentindo, abrindo.
Olhando, vindo, partindo.
Andando...
Amando...

Existindo.

domingo, 27 de julho de 2008

Acordo no meio da noite
Na escuridão do teto
teu rosto brilha num sorriso
O céu se abre em volta de você...

Eu levanto, bebo água, ligo a tv...
Mas eu fecho os olhos e ouço tua voz
E na escuridão do teto
teu rosto brilha, num sorriso...

Eu caminho, acendo um cigarro, ligo o pc...
Mas eu fecho os olhos e ouço tua voz
Na tela do computador
Na foto, na letra, no som, é você...


Eu me agito, tomo um remédio, desconecto...
Só quero me deitar
E ver teu rosto na escuridão do teto
Brilhando num sorriso

Já não durmo sem você...
Me reviro e penso em nós...
Meu corpo não relaxa sem teu riso
Eu fecho os olhos para ouvir a tua voz...
Acordo no meio da noite
Na escuridão do teto
teu rosto brilha num sorriso
O céu se abre em volta de você...

Eu levanto, bebo água, ligo a tv...
Mas eu fecho os olhos e ouço tua voz
E na escuridão do teto
teu rosto brilha, num sorriso...

Eu caminho, acendo um cigarro, ligo o pc...
Mas eu fecho os olhos e ouço tua voz
Na tela do computador
Na foto, na letra, no som, é você...

Eu me agito, tomo um remédio, desconecto...
Só quero me deitar
E ver teu rosto na escuridão do teto
Brilhando num sorriso

Já não durmo sem você...
Me reviro e penso em nós...
Meu corpo não relaxa sem teu riso

Eu fecho os olhos para ouvir a tua voz...

quarta-feira, 23 de julho de 2008


...eu te remonto nas palavras
nos pedaços que colhi no meu colchão
em noites mal dormidas
sobre livros folheados à procura
de sinônimos em versos
que dissessem de mim, de você...

Você, nas reticências
No silêncio das veias
Nos olhares escapados em frestas
Do que não dissemos
Depois do teu abraço
Longas e cúmplices horas


Mãos que se dão de presente
Em dedos que se entrelaçam
E correm perdidos
Os riscos da pele
Olhos que faíscam pistas
Do plano que não tivemos coragem

Descubro aos poucos
Tua verdadeira imagem
-apaixonante curiosidade –
mas ainda restam tantas peças...
Em qual delas vou estar?
Em qual delas és miragem?

terça-feira, 22 de julho de 2008





Deslumbrei-me com o que
Antes era um sopro
E minha loucura elegorizou
Agora como que por encanto
Presa em sua tez
O mundo me tem em pranto
E já não sei o que de mim se fez

Em sonhos de quimera
Perco-me na noite
Entre mãos e pernas
Paixões e embriaguez

A vida, eu bem quisera
Não fosse no peito um açoite
Não fosse no dia tanta lucidez

sexta-feira, 18 de julho de 2008


Para um amigo tenho sempre um relógio
esquecido em qualquer fundo de algibeira.
Mas esse relógio não marca o tempo inútil.
São restos de tabaco e de ternura rápida.
É um arco-iris de sombra, quente e trémulo.
É um copo de vinho com o meu sangue e o sol.

(António Ramos Rosa, "viagem através de uma nebulosa", 1960)


Numa desta noites de sarau a dois, um amigo me deixou isto:


terça-feira, 15 de julho de 2008

Quero escrever sobre
As mágicas que aprendi
No teatro místico que ingressei
Mas é antiético.

Queria escrever aqui
Meu diário de sonhos
Com seus personagens sem rosto
Que se esfregam como velhos conhecidos

Sobre um romance secreto
Mas ele perderia o brilho

Sobre de onde vêm minhas dores físicas
Mas quem olharia para as de dentro?

Sobre um refúgio que descobri
Mas outros certamente iriam conferir

Quero falar daquela menina estranha
Que ainda não conheci

Quero cantar a música que compus
Pra alguém distante sem saber porquê

De tão interessante que estes dias foram
Não soube mais o que escrever

É sempre assim:

Fica no plano do não dito
O mais interessante sobre mim

quinta-feira, 10 de julho de 2008

A imaginação se expande
As pupilas se dilatam
Os lábios se abrem
Os poros vazam
Peito que infla
Pêlos eriçam
Coração se espalha
Correntes se quebram
Músculos que se estendem
Só o ventre se contrai.

segunda-feira, 7 de julho de 2008




Ela gargalhava num tropeço
E um beijo me causava soluços
Um orgasmo extravasava-me um choro
E me abraçava com cabelos de bruços

Seu sexo me mordia as pernas
E com os olhos me dava de comer
Enxugava a tempestade
com nossos lençóis
E inventava contos
pro meu sono passar
Tecia uma rede com músicas
E ali desurromou o meu lugar

Despenteava minha idéias
E deslavava minha cara
E via cores escorrendo
Nas curvas das minhas veias

Cravava sua pele macia
Em meus dentes
E pra meu desassossego
me arrancava poesias

Ela fez tudo ao contrário

De repente perdi de vista o fim
Seus pés sempre corriam contra a mão
Correram porta a dentro
Pra dentro de mim

quarta-feira, 2 de julho de 2008

Amantes correm ponteiros pra trás se preciso for...

Não escolhem lugar confortável pra se amar

Não medem gastos

E roubam flores pra agradar

Amantes fazem pacto de prazer...

Sussurram um nome no meio da madrugada

Acordam banhados de suor

Amantes não têm para onde correr

segunda-feira, 30 de junho de 2008

Estive em Porto Alegre,
estive fora do ar por três dias...


(...ainda estou...)



Alguém
ao decidir
me pediu que eu não fosse
Alguém
antes de eu ir
desejou que eu me apaixonasse
Alguém
ao partir
quis que eu ficasse


Eu, só sei sentir...


"Me atirava do alto na certeza
de que alguém segurava minhas mãos,
não me deixando cair.
Era lindo mas eu morria de medo.
Tinha medo de tudo quase:
Cinema, Parque de Diversão, de Circo, Ciganos...

Aquela gente encantada que chegava e seguia.
Era disso que eu tinha medo, do que não ficava pra sempre."

quinta-feira, 26 de junho de 2008

Véspera

Não há nada mais inquietante
Do que a véspera
A suposta possibilidade de se ser feliz
A provável ventura de um amor encontrado

Não se sente nada mais profundo
Do que a véspera
Ao imaginar o futuro
Toque dos sentimentos derrotados

Não há nada mais calmante
Do que a certeza da véspera
Aquela que vem antes do tão sonhado
Encontro do outro dia

Não há nada de mais
Na véspera não ansiada
Do que já é realidade
Sagaz essa felicidade
De estar sempre à espera por viver

terça-feira, 24 de junho de 2008

Mas e se tudo ruir
As flores que plantei
Os escudos que construí
Nos caminhos que andei
Em lugares que vivi

Mas e se tudo fluir
As sementes que soprei
No vento que senti
De palavras que pensei
E jamais proferi

Mas e se você não vir
Os porta-retratos que quebrei
Nas paredes que destruí
Com as cores que pintei
De sons que não esqueci
Fim de semana cult sem bebedeira...

...que ressaca isso dá! Espetáculos teatrais sexta, sábado e domingo. Só agora to me aprumando...

Poderia me perder aqui escrevendo o que pensei anotar na memória enquanto assistia, mas vou dar o resumo da ópera. Algumas considerações:

Sexta, com mais fina companhia, fui assistir finalmente o badalado Imembuí, espetáculo musical que conta a fantástica história de amor de uma índia e um forasteiro que deram origem a essa aldeia chamada Santa Maria. Tenho lá minhas dúvidas sobre a verossimilhança da romântica história. Tenho minhas dúvidas sobre o espetáculo. Saí cheia de dúvidas! Quem era o velhinho vestido de soldadinho de chumbo que recitava em playback??? Por que o índios eram afros e dançavam street dance com roupas de funk? Por que quem se caracterizava de índio tendia a vestir-se de moita? Gente,eram uns arbustos!Por que o narrador pilchado usava microfone de haste auricular e a cantora que representava Imembuí fazia trejeitos de cantora de barzinho segurando um baita microfone?
O melhor, e impecável, sem dúvida fui o instrumental ao vivo, bravo meninos!

Sábado fui assistir finalmente Aline Maciel em seu monólogo, uma adaptação do conto de Jorge Amado: O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá.
Linda apresentação, cujo intuito é o resgate da arte de contar histórias. Ao final pude participar do debate que se deu após o comentário da comissão julgadora. Confirmou-se o que sempre falo, mais que talento, é preciso que a atriz tenha graça (no sentido mais virtuoso e menos raso da palavra)! Fui ao teatro sozinha, mas tive sensação de plenitude, ainda mais quando o personagens tomavam forma dentro de mim e um cenário surgia à volta da contadora.
Se dependesse da minha nota como júri popular, teria eleito!
Aliás, esse esquema do FETISM de debate e júri popular ficou ótimo!

Domingo fui assistir minha ex e futura professora de Técnicas de Representação, Taís Ferreira em Platero e Eu.
De cara pensei “não devia ter trazido meu filho”. Muito interessante o trabalho de pesquisa também em cima da arte medieval de contar histórias.
Mas... saí da peça com uma certeza (ao contrário de sexta) :



prefiro os gestos sutis que falam tanto mais.